Wednesday, June 04, 2008

Reencontro com meu passado em Capanda

Crônica 14 Cacuso – Capanda

Esta era para ser mais uma viagem dentre tantas que ocorreram até então e tantas que irão ocorrer, a não ser por um detalhe. Capanda ! Estas letras significam, além de u ma localização no interior, as margens do rio Kuanza, uma hidroelétrica de grande porte, que foi construída pela Construtora Norberto Odebrecht. E este fato tem muito a ver comigo, pois em 1985 eu estava cursando o 5º ano de engenharia na Universidade Federal de Pernambuco enquanto estagiava em uma obra importante em Recife, o Viaduto Tancredo Neves. Esta obra havia sido calculada pela empresa de meu tio Waldir e liga a Avenida Recife ao Bairro de Boa Viagem. Foi algo marcante para a vida de estudantes como nós que estávamos tendo contato com diversas técnicas de construção de grande porte como vigas pré-moldadas com 30m sendo içadas por treliças corrediças, protensão de estruturas, etc. Boa parte delas ainda perduram até hoje, com inovações, é claro!

Eu integrava a equipe de fiscalização da empresa projetista que zelava pela qualidade na execução das estruturas em concreto.. Em Outubro, perto do final da obra, percebi uma grande afluência de engenheiros e trabalhadores de todos os níveis e qualificações. Achei estranho, pois estava ocorrendo algo inverso do natural. A Odebrecht deveria estar desmobilizando pessoal e no entanto ocorria o contrário. Procurei saber a causa daquele fato e me indicaram um cartaz que diza “Venha Construir Capanda em Angola”.

Procurei saber de meu amigo e colega de turma Jaime Ferraz, que na época estagiava na CNO. Ele me falou que Capanda seria uma usina hidroelétrica que a Construtora iria erguer no interior de Angola. Naquela época eu tinha uma pequena lembrança de toda a problemática da independência e da morte de Agostinho Neto, o principal articulador da independência, que se tornou presidente. Apesar de ser pré-adolescente na época (1975) lembro das filmagens que apareciam no Jornal Nacional e dos comentários de meu Pai sobre o tema.

Então eu tinha uma vaga idéia do desafio que aquelas pessoas teriam pela frente em um país africano em estado de guerra civil. Soube que boa parte da direção da nossa obra iria conduzir o empreendimento, inclusive o gerente de contratos, Engenheiro Delmar. Lembro-me que comecei a encará-los com sentimentos dúbios. Ora achava que estavam todos loucos, ora os considerava como seres superiores, que tinham a coragem de deixar para trás seu país e enfrentar aquela quantidade de desafios de um lugar naquelas condições.

A história da CNO e sua equipe, em relação a construção de Capanda e de outras obras de engenharia em terras angolanas, resultaria em um grande livro ou documentário épico, pois dela fazem parte vicissitudes como sequestros, mortes, fugas e evacuações heróicas que resultaram em tudo o que a construtora é para a engenharia no âmbito angolano e mundial. E boa parte do embrião desta história foi recrutado ali naquela obra do Viaduto Tancredo Neves em Recife.

Minha intenção não é de forma nenhuma fazer marketing para a Construtora Odebrecht, nem tenho nenhuma ligação atual, ou é minha meta futura ter (já que minha formação como engenheiro caminhou para uma vertente diversa da produção na construção), só me rendo aos fatos por mim presenciados.

A nossa aventura começou em Luanda quando o INEA solicitou-nos uma Nota Técnica que contemplasse o acesso a Capanda. Eu estava esperando esta oportunidade desde quando os engenheiros do INEA falaram desta hidroelétrica e eu a localizei em minha memória. A própria CNO havia solicitado este levantamento ao órgão, visto ela manter uma quase cidade no local de operação da usina de energia. Fui com mais 2 engenheiros novos e novatos na empresa, Josias e Caetano, e uma equipe do INEA a nos assessorar, chefiada pelo Arquiteto Angobrasileiro Armando e acompanhada pelos técnico António Pedro e pelo estudante de engenharia Célio.

Saímos muito cedo, antes de clarear e fomos na rota leste, passando por Viana e Maria Tereza. Entramos em uma via secundária, já por nós conhecida, com características de “picada#. Preferimos esta apesar de ser uma estrada em leito natural, pois as estradas nacionais estavam em piores condições do que esta para tráfego. Esta estradinha nos mantinha em contato com boa parte da natureza que a guerra não conseguiu acabar. A região era formada por uma floresta espessa. Entremeadas por áreas de savanas. Podia-se ver alguma fauna que se atrevia a chegar próxima a estrada, como macacos e veados. No meio do caminho fizemos uma parada técnica em uma povoação a margem da estrada e veio um senhor com uma gazela para nos vender. Josias, que é fanático. Por animais, enlouqueceu e quase comprou o bichinho. Foi necessária uma forte intervenção para que isto não acontecesse. Nossa viagem continuou com muitos chacoalhados e balanços.


Josias e a gazelinha

Desta forma chegamos a Cacuso perto das 17:00 hs. Cacuso aqui quer dizer um peixe de rio muito consumido por todos. Para nós seria a tilápia. Este peixe se tornou base da alimentação angolana.

Ali teríamos que encontrar o acesso a CAPANDA objeto de nossa vinda. Rapidamente identificamos a estrada e iniciamos nossa jornada àquela que seria uma das mais excitantes aventuras devido ao seu significado para mim.

Vimos pouco da estrada neste dia, pois logo escureceu e não houve como analisar o trajeto. Chegando a vila de Capanda, um local todo cercado e com guaritas para controlar o tráfego de entrada e saída, apresentei as nossas credenciais e fomos encaminhados para o refeitório.

Apesar da comida ser feita para grande escala, estava uma delícia e mais, foi uma maravilha entrar em contato com o tempero brasileiro novamente e principalmente no meio da África. O que mais me deu saudades foi o paozinho francês que era feito na padaria de lá. Deu para esquecer os pães carcaça dos portugueses de Luanda e lembrar das nossas padarias.

Achei estranho que todos os letreiros no refeitorio eram também traduzidos para russo!!! Foi neste momento que identifiquei aquelas figuras branquíssimas, jantando em uma mesa à parte e vários outros chegavam e sentavam-se próximos e conversavam. Os russos haviam elaborado o projeto de Capanda e trabalhavam na operação e manutenção da hidroelétrica. Por isto tudo era escrito em português e russo.

O Refeitório de Capanda
Após matarmos a fome fomos conduzidos aos nossos dormitórios que eram quartos para duas pessoas. Na Vila de Capanda existem dormitórios com níveis diferenciados. Os mais simples são para os trabalhadores especializados, a medida que os cargos aumentam de responsabilidade, aumenta a comodidade de cada dormitório. Há casas separadas para encarregados e engenheiros que trouxeram a família.

Fomos conduzidos para os dormitórios dos engenheiros. Eram bastante funcionais e simples, compostos de uma mesa de trabalho, um guarda-roupa e duas camas. O mais importante para nós estava no banheiro que tinha um chuveiro com água corrente, fundamental e um diferencial relevante para quem estava no interior de Angola. No dormitório havia ainda espaços de convivência que incluiam sala de televisão, bar, salão de jogos e sala de ginástica equipada. Tudo com informações em português e russo.

Mantive contato com o Engenheiro Rubens, responsável por minha vinda e este se desculpou, pois estava planejando fazer um churrasco para nós, mas houveram impedimentos profissionais que frustaram este nosso contato. Vida de Engenheiro! Comuniquei-lhe o nosso plano de trabalho e informei a hora de nossa partida no dia seguinte.

Saímos para dar uma volta na vila e identifiquei muitos equipamentos para o lazer do pessoal, como clube (com piscina), quadras de esportes, quadra de tênis, etc. Há ainda em Capanda um aeroporto que pode descer um Boieng 747. Tudo para que a permanência dos técnicos seja a mais salutar, aprazível e segura possível.

Uma vista das instalações da vila de Capanda
Pela manhã acordamos às 5:00 horas para nos preparar para os trabalhos. Conseguimos o café –da-manhã antes das 6:00 hs no refeitório e partimos para os trabalhos. Antes disso, fomos visitar a hidroelétrica de Capanda, a barragem propriamente dita, onde estão as comportas. Foi um momento bastante especial para mim, pois eu não parava de relacionar os dois momentos em minha vida profissional, onde nunca as variáveis de espaço e tempo atuaram tanto para separar duas situações que eram tão interligadas em minha mente – Limite entre as Províncias do Kuanza Norte e de Malange, em Angola e a cidade de Recife, Estado de Pernambuco, Brasil – Uma no ano de 1985 e outra no ano de 2006.
Para chegar até a barragem percorremos dois quilômetreos onde apareciam diversos equipamentos de infraestrutura, como estação de tratamento de água e pedreiras. Obviamente a barragem se loclizava em um vale e o que se vislumbrou logo de princípio foi o imenso lago provocado pela obstrução do leito do rio Kuanza. A medida que íamos chegando ao fim da estrada, a parede da barragem ia se mostrando com suas comportas. A manhã estava bem no começo, e havia uma espécie de de névoa encobrindo a barragem que tornava aquela visão algo mágica. O sol já havia nascido a algum tempo, mas estava ali bem próximo a linha do horizonte do lago, para emoldurar a estupenda paisagem do nascer do sol africano. fotos


Face à montante da parede da barragem


Face à jusante da parede da barragem
Por-do-sol no lago barragem de Capanda


Entramos no Land Rover do INEA e fomos para a rótula que seria o ponto de início dos nossos trabalhos. O trecho era uma estrada com boa plataforma e sum solo areno-argiloso como a maioria dos que vimos em Angola. Deveríamos elevar o terrapleno em diversos pontos, pois era evidente que a estrada estava abaixo do terreno natural estes locais.

Não encontrava uma rocha sâ ou já usada que me permitisse indicar como pedreira para exploração na obra. Repentinamente meu problema se resolveu a uns 30km de Capanda. À minha direita se divisou uma imensa concentração de rochedos que parecial formar uma linha a, mais oum menos uns 500m da estrada. Senti um alívio e anotei aquele afloramento no meu relatório. Ao mesmo tempo comecei a me incomodar com a beleza daquelas protuberâncias rochosas que estariam destruídas em boa parte de sua extensão. Elas pareciam gigantges a dançar em volta de um grande Quimbo (aldeia) rochoso. Bati algumas fotos do local e prosseguimos.

Ocorrências rochosas. O que seriam?


Ao fim da viagem fui conversar com os angolanos que nos assessoravam. Falei sobre as rochas e ninguém comentou nada. Só depois vim a saber que aquele é um dos parques histórico-naturais de Angola. Um grande destaque da viagem e que por si só valeria a pena viajar até lá. Era chamado de Pedras Negras de Pungo Andongo que são formações rochosas de grande beleza natural, que surgem repentinamente num terreno plano, onde dizem estarem marcadas as presenças da rainha N’Ginga M’Bandi, rainha do reino da Mataba (região de Malange) e do rei N’Gola Kiluange. Carregam uma áurea de mistério em torno deles, pois conta a lenda que, há séculos, ali existia um coliseu de torturas e bacanais da Rainha. Diz-se que existem até pegadas preservadas no local, atribuídas a N’Ginga M’Bandi. A cor negra provém de determinadas algas filamentosas que se desenvolvem nas águas absorvidas pelas rochas.

Pedras Negras de Pungo Angongo (foto Mário Tendinha)


Vista das Rochas de Pungo Andongo.


Claro que em Luanda fiquei revoltadíssimo por perder a oportunidade de explorar mais um sítio histórico deste país. Fiquei mais revoltado com a patrulha angolana que nos assessorava que não teve clarividência, ou conhecimento, de reconhecer o local. Mais revoltado fiquei comigo mesmo, por ter dado uma prova de amadorismo na faceta de explorador que eu me alto-alcunhei. Deveria ter me informado antes de partir para quais terras eu iria andar.

Para vocês um conselho, se precavenham deste erro pois a frustação é grande.

Ao final desta passagem relembro um momento em cima da parede da barragem de Capanda quando ficamos ali algum tempo a admirar tudo aquilo em volta e eu a imaginar o tanto de transformações que ocorreram naquele lugar, com aquela gente que transformou aquele lugar (como sobreviveram aos conflitos, engenheiros, encarregados, operários..?) e comigo próprio que me sentia apegado a tudo aquilo e me recordava de um certo jovem estudante de engenharia, com todas as indagações de uma profissão cheia de desafios e que revia suas próprias forças e procurava as respostas para as perguntas que fazia a si mesmo ao ver aquela fila de homens abnegados, no auge dos anos 80, em busca de seus destinos. Naquele momento de 2006 se fechava um ciclo na vida do jovem estudante com algumas respostas para tantas perguntas que ele fizera, dadas pelo engenheiro que ele se transformara. Fui despertado pelos outros dois que estavam ansiosos por iniciar os trabalhos e não entendiam aquela contemplação exagerada do amanhecer no imenso lago do rio Kwanza.


Saturday, January 26, 2008

Um Dia que ficará

Crônica 13 - A viagem seguinte nos fez voltar a Lobito que seria o ponto de partida. Teríamos que sair de lá e, pela EN 250, chegar a Alto Hama, região centro-oeste de Angola.. Estes caminhos já me eram conhecidos desde 2005, quando voltamos de nossa primeira temporada em Huambo (Crônica 7), na ausência de aeronaves, utilizamos esta via para voltar pelo litoral (EN 100). Encontrava-se em condições desesperadoras, mas foi nela que eu tive uma das visões mais belas de Angola. As montanhas do vale de Loundovale, cheias de histórias de emboscadas nos conflitos, mas de uma beleza fenomenal ao entardecer (fotos Crônica 7). Como sempre, éramos 2 delegações. A primeira com 3 engenheiros brasileiros e a segunda, a delegação angolana composta por 4 pessoas, 3 engenheiros e 1 arquiteto. Dois destes estavam com a tarefa de fazer reconhecimentos para a elaboração da proposta para fazer a desminagem da estrada.


Estrada já conhecida, portais, montanhas e histórias.

A companhia dos novos integrantes, (pois os outros dois -Edgar e Armando- já faziam parte da equipe de levantamentos), foi acima de tudo “engraçada”, pois parecia que os “gajos” tinham ido fazer turismo e pouco estavam ligando para o trabalho.

Nossa equipe que faz.

Encontramo-nos na cidade do Sumbe, almoçamos o bacalhau do príncipe e seguimos para Lobito pela EN 100. Nos instalamos (longe do Grande Hotel!!! – Crónica 7), em um lugar mais aprazível e funcional. No jantar fomos a um espaço que era um misto de restaurante e playground, que apesar do serviço ruim, tinha uma boa comida, além de ser muito bonito. Situava-se na praça onde se encontra o barco-monumento (fotos e descrição na Crónica 7).

O dia seguinte foi singular, não só pelo início da árdua tarefa de coletar dados da longa estrada a nossa frente, como também pelo fato de ser 13 de Julho, dia do meu aniversário. Era o primeiro que passava em terras africanas e quis o destino que ele fosse o mais especial possível. Em uma viagem bem no interior de Angola. Recebi os comprimentos de todos, brasileiros e angolanos e iniciamos os trabalhos.

A questão era dúbia de sentimentos. De um lado existe a necessidade de sobrevivência profissional, e de ouro existem as nossas necessidades humanas, como a de estar ao lado das pessoas que amamos nestas datas. Nesta distância e com a impossibilidade de comunicação, tudo se tornava mais difícil. Consegui diferenciar duas reações. A primeira a do sentimento de abandono, apesar das tentativas de comemoração mesmo, nestas condições. A segunda reação é a instigante sensação de chegar mais longe, que motiva certas pessoas, mesmo tendo que sacrificar datas, sentimentos e entes queridos. Nesta hora o despreendimento e a valorização do pouco que se pode conseguir para atenuar sofrimentos são as melhores alternativas. Então para mim sobrou um extenuante dia de trabalho, com muitas possibilidades de tirar boas fotos. Isto tudo fazendo o que mais gosto. Explorar!!!!

Assim explorei de dia uma região que havia passado somente à noite. Vales, aldeias, montanhas rochosas, cemitérios com suas sepulturas criativas e principalmente gente. Víamos sempre muitas mulheres trabalhando como vendedoras de frutas e verduras, lavradoras com suas enxadas, cozinheiras em feiras livres, etc. Tudo isto com a eterna companhia de seus miúdos bebês amarrados às costas.


Explorando tudo, vilas, vales e montanhas.

Quer seja no Sol ou na chuva, eles estavam ali, atrelados à suas mães. Passamos então por Bocoio e assim chegamos a Balombo, onde sentimos que não havia mais visibilidade para realizar qualquer tipo de trabalho. Procuramos por algum tipo de hotel que pudéssemos pernoitar e achamos a tal pousada digna da localização onde se encontrava. Enxerguei uma via de desafogo para a minha situação. Não são muitos os que tiveram a oportunidade de passar o aniversário em uma cidade no interior da África Austral, sem luz elétrica e a comunicação sendo realizada apenas por telefone via satélite.
Quando pus os pés em Balombo, procurei atenuar as sensações negativas pegando o Iridium (telefone por satélite) e ligando para o Brasil para falar com todos os meus. Senti então o fundamental de ouvir vozes queridas nestes momentos. Algo que preenche todas as lacunas.

A pousada encontrada era no estilo “interior da África”, com quartos diminutos com uma janela (fechada, para não me deparar com a mosquitinha de novo) e banheiros fora dos quartos, impraticáveis a qualquer atividade primordial e necessária .



Espaço para integração na Pousada.

Saí com meus companheiros de viagem com a intenção de não deixar a data passar em branco, mesmo em Balombo! As comemorações lá exigem uma boa dose de desprendimento. A opção de sair a pé foi uma aventura a mais, acima de tudo. Não enxergávamos nada a nossa frente e nos guiávamos através de alguma claridade vinda de estabelecimentos providos de geradores (o que acontecia pouquíssimo!).


Balombo meio-dia.
Balombo "by night"!

Ainda andava de resguardo etílico devido a malária (fazia 2 meses mais ou menos que eu havia contraído), mas decretei o final da abstinência naquela noite. Encontramos uma espécie de restaurante/bar/pousada/etc, o local mais propício a comemorações que estava ao nosso alcance. Apesar disto, havia um bom vinho português que regou a noite. E ali , naquela terra que suportou boa parte das andanças e atrocidades de Savimbi e sua UNITA, me senti satisfeito com o que havia sido me concedido. Não pela comida, acomodações, bebida, etc., etc. Mas por ter a plena certeza de que esta data irá ficar gravada e propagada devido ao fato de ter sido passada e festejada em Balombo, interior de Angola, África. Tenho fotos e testemunhas!


Comemoração em Balombo


E a vida continua...

Thursday, August 02, 2007

Crônica 15 - Avião, helicóptero, urubu e outros bichos

Crônica 15

Tive a liberdade de saltar vários relatos que poderiam gerar boas crônicas para escrever algo que foi completamente inusitado e que vale um bom texto. Vamos ver se sou capaz.

Atualmente estamos as voltas com a produção de um áudio-visual para respaldar tudo aquilo que está sendo realizado. Para isto, várias estratégias foram criadas com o intuito de conseguir imagens das obras. Desde percorrer normalmente as estradas mais próximas de carro, até fazer isto de helicóptero (helicóptero?!!!!). Pois é!. E mais, esta viagem seria para daí a dois dias. Quando me foi mostrado o roteiro, foi fácil identificar que a maioria das obras que estavam ali, eu as conhecia bem. Então, quem iria??? Eu é claro. Isto me foi dito enquanto me preparava para uma viagem para uma província no Norte do país. Como, em um certo momento da vida, decidi que não me arrependeria de nenhuma decisão que tomasse, quando ficasse velho (tanto é que estou aqui), topei a parada. Pelo roteiro eu teria que ir com a tripulação e a equipe de filmagem para passar 3 dias viajando por TODA Angola.

Logo vi que era pretensão demais dos meus colegas diretores. Haviam trechos nas províncias do sul, (como Cunene e Huíla), nas províncias do norte (como Uíge e Cabinda, a fração de terra sacada do restante do país) no centro (como Cuanza Norte) a Oeste (como Malange e Bié) e a oeste (Como Cuanza Sul). Achei a pretensão demasiada devido ao curto espaço de tempo dado para o início da aventura. Não se estala os dedos e um helicóptero aparece aqui em Angola. Apenas este motivo foi determinante para que a viagem fosse adiada. Passaram-se dois dias de buscas infundadas e nada de helicóptero. Então no final de semana passado ( ficou decidido começar as filmagens por terra, nos trechos mais próximos de Luanda. Fui com a equipe para Viana-Maria Tereza e Kafangondo-Catete. Nada de novo aconteceu, pois estes locais são sempre cruzados por nós e bem conhecidos.


Imbundeiro na estrada Viana-Maria Teresa

Surpresa foi o contato com a equipe de filmagem e identificar o meu papel nesta história, que eu achava que seria de um simples observador. Logo descobri, friamente, que seria determinante para a conclusão dos trabalhos. Apesar de Marcelo, o técnico responsável por todo o projeto áudio-visual, estar aqui a muito tempo (desde 2002), vi que não havia viajado pelo país e, óbvio, não entendia daquilo que ele estava filmando.

A viagem no helicóptero ficou marcada para a terça-feira ,dia 15 de maio. Neste dia acordei às quatro da madrugada e às cinco já estávamos na base aérea com o Major Frank, que estava encarregado de viabilizar este vôo. A espectativa era voar as 5:30 hs. O dia amanheceu e o major começou a distribuir impropérios para todos os números de sua agenda do telefone. “Cadê a tripulação que não chega?” Às 7:00 hs da manhã para uma Van caindo aos pedaços e dela desce um militar que começa a falar com o Major Frank. O Major depois vem a mim e, bastante constrangido, me fala: “Engenheiro Fernando, isto nunca aconteceu aqui, mas o caso é que todas as aeronaves estão proibidas de voar até uma segunda ordem. Trata-se de um comando direto do General que comanda esta frota. Fala-se em uma inspeção de surpresa às 9:00hs. Portanto o vôo está cancelado no momento. É melhor voltares ao seu escritório, que me comunicarei consigo mais tarde.”

Não é preciso dizer da frustação de todos que estavam lá e da sensação de insegurança por trás daquela notícia. A história por detrás dos fatos é que existem duas forças que estão a se digladiar na reconstrução do país. Estão a medir-se, tanto no comando de obras importantes, quanto e, principalmente, no aspecto político. Este trabalho que estamos a desenvolver é para promover as ações de uma das partes, ao qual o nosso trabalho de engenharia está direcionado. A outra, logicamente, não deve estar vendo com bons olhos este esforço de promoção da contraparte. Nesta situação específica, uma das suspeitas é que a informação do vôo (e suas intenções) deve ter vazado e a “entidade contrária” usou de sua influência militar para que este não acontecesse. Refletindo melhor, se estas supeitas tiverem algum fundo de verdade, concluí que deveria me congratular com esta "força" por ter tido o gesto magnânimo de ter embargado o helicóptero ainda em terra e não ter tido a triste idéia de interceptá-lo no ar.

Na sexta-feira, estávamos trabalhando normalmente, na programação de mais uma saraivada de notas técnicas, que nos iriam consumir o próximo mês de trabalho em viagens e elaboração de documentos. Uma reunião inesperada irrompeu na nossa “rotina”. Nesta eu soube que, não só o circuito com o helicóptero voltou às nossas metas, bem mais enxuto, é verdade, como teria um percurso a ser realizado de avião. Nesta nova programação, iríamos realizar pousos com um jatinho em diversas cidades do país onde estivessem acontecendo obras, para filmá-las e fotografá-las. Isto iria acontecer no sábado 15 de maio, e previamente escolhemos as cidades de Lubango, Benguela, Waco Kungo e Malange para os pousos. Elas foram indicadas por serem centros onde as principais obras estão a convergir. Teriam muitas outras que ficaram de fora por um motivo ou outro. O principal deles é que cupriríamos em cada local uma roda-viva de tarefas para voltar e voar novamente, e isto levaria tempo. Teríamos que descer no aeroporto, nos disvencilhar da burocracia angolana relativa a deslocamentos internos de expatriados, procurar as equipes do INEA que nos assessorariam em terra, rodar alguns (ou muitos) quilômetros para chegar aos locais interessantes, filmar, fotografar, retornar ao aeroporto e voar para o próximo destino no mesmo jatinho, que estaria a nos aguardar. Toda esta gincana deveria se encerrar em Malange, ANTES das 17:30hs, horário em que os pilotos ainda tinham autorização para voar de volta para Luanda.


Pela manhã, nossa equipe, composta por eu, Marcelo e o cinegrafista angolano Junior, chegou a Angola Air Service, proprietária do jatinho, às 4:30 da manhã. A nossa aeronave já estava preparada. Conhecemos os pilotos Tiago, nosso interlocutor português, comandante da aeronave e o co-piloto Sam, sul-africano, que nos passava as informações da viagem. Decolamos ainda no escuro rumo a Lubango. O jatinho era excelente e não havia turbulência. A hora e meia de vôo foi um sono só. Chegamos em Lubango e não tivemos muitos problemas com a burocracia. A tarefa lá não era fácil. Tínhamos que rodar 50km para chegar no objetivo principal, o trecho do acesso a cidade de Matala, com 132 km que a Andradre Gutierrez concluiu e está funcionando como vitrine do programa de reestruturação das estradas. Estes 50km faziam parte da tarefa, pois liga Lubango a este entrocamento de rodovias e estava sendo restaurado pela Planasul, empresa de capital brasileiro.


Nosso jatinho(direita), pronto para sair.

Ao sair do aeroporto, vi meus velhos companheiros de outras jornadas pelas terras da Huíla, o Director Florêncio Teófilo e Pistola, o grande contador de histórias.
Estavam sem entender muito o que viríamos fazer, mas sabiam da importância da nossa visita. Explicamos os objetivos e partimos em direção ao início do trecho. No entremeio do percurso, pude rever minha paixão pela cidade, que considero a mais deslumbrante de Angola. Não pude ver os melhores locais, mas o que foi visto bastou para encantar Marcelo, o diretor de áudio-visual. Ele percebeu uma mudança de mentalidade das pessoas, comparando com Luanda, era relacionada com a recepção dos visitantes e a limpeza da cidade. Entramos no trecho e começamos os trabalhos, com muitas oportunidades para imagens com as máquinas trabalhando na pista. Filmamos o estaleiro e o laboratório da empresa Planasul (fotos). Fomos em seguida para a rodovia em mais evidência, cuja restauração foi financiada pelo governo brasileiro e os trabalhos realizados pela Andrade Gutierrez. Aliás o governo brasileiro está com uma carteira de finaciamentos aqui em Angola da ordem de 1,2 bilhão de dólares, até a presente data (06/06/07), somente em rodovias.

Kandonga na estrada da Andradre Gutierrez

Eu já a conhecia da época das obras, mas vê-la toda sinalizada no meio das paisagens angolanas realmente causou um diferencial para quem gosta de ver as coisas darem certo na sua área de atuação. Andamos 15 km nela e retornamos, pois o nosso tempo estava indo pro gargalo. Mas foi o suficiente para perceber o excelente impacto que a nossa engenharia, tão criticada, está deixando no restante do mundo. E não é a toa que as nossas principais construtoras estão aqui.

Chegamos de volta ao aeroporto às 11:10hs e nos despedimos da nossa eficiente dupla de terra na província do Huíla. Aterramos em Catumbela, base militar da província de Benguela. Escolhemos descer na base, pois ela fica na beira da estrada que era o objeto de nossa atenção. Logo ao descermos da aeronave fomos cercados pelos militares que queriam saber quem éramos e o que iríamos fazer. Eu estava com minha pasta cheia de credenciais e não houve problemas em nos identificar e dizer o porque descemos ali.

O problema aconteceu com os nossos aconpanhantes em terra que não estavam presentes na base para nos receber. O que devia ser uma parada rápida, já começou com atraso de 30 min que foi o tempo perdido a espera da equipe de Benguela. Ao chegar os benguelenses, conhecemos Zelito que foi nosso anfitrião. Este não entendeu muito o espírito do levantamento e nos meteu por dentro do trânsito de Benguela para nos levar para conhecer o Engenheiro da Mota-Engil, empresa portuguesa que está duplicando a rodovia, (bem devagarinho!). O que era para ser uma parada rápida, foi onde perdemos mais tempo. Após conhecermoso tal engenheiro, voltamos ao trecho com quase uma hora de atraso. Começamos os trabalhos de filmagem e soubemos que o estaleiro que nos interessava estava a uns 2 km da pista. Entramos a direita em uma estradinha arenosa, como todas em Benguela. Reencontrei então a aridez daquela terra qie já recebe as influências do deserto da Namíbia. Não deixa de ser interessante, e porque não dizer bonito, aquela variação de tons de areia quando se sabe de onde vem e quão profundo estas características físicas chegam. Elas evoluem até virar um deserto.


O estaleiro da Construtora na "aridez" de Benguela.

Filmamos o estaleiro da empresa perdido naquele meio-ambiente inóspito (foto) e voltamos para a estrada (que é quase a beira-mar), até o rio Catumbela, já próximo a cidade de Lobito. Fomos ver como estavam as obras para a construção da nova ponte sobre este rio, por onde deverá passar o tráfego da estrada. Deverá ser uma ponte de um porte ainda não visto em Angola. Infelizmente só fora realizada uma leve terraplenagem nas margens, para abrigar o depósito de materiais.

Voltamos para a base aérea, onde os pilotos foram proibidos de ficar dentro do avião e, como não quiseram ficar nas salas de espera da base, equipadas com ar-refrigerado, mas longe do aparelho, estavam a nos esperar deitados à sombra da asa. Foi uma visão diferente e engraçada, a considerar, com o perdão do comentário sarcástico, que os dois, apesar de toda a tecnologia que comandavam, estavam menos confortáveis que um motorista de praça.

Voamos em direção a terceira etapa em Wako Kungo. Nesta eu tinha amplo domínio da situação, pois estava sob domínio de nossa empresa. Eu já havia contactado com Raymisson Cardoso, Engenheiro residente nosso lotado nesta cidade, e descrito mais ou menos o que deveria acontecer nesta passagem. Defini com ele as providências que deveriam ser tomadas. Ao descermos Berilo Medeiros e Eduardo Mesquita, outros de nossos engenheiros lotados em trechos próximos, já estavam a nos esperar. Eles trouxeram equipamentos que estavam faltando em Waco e que deveriam aparecer nas filmagens, ficaram então, com Raymisson para ajudá-lo nas providências para a nossa passagem. Neste dia tive orgulho de nossos colegas do interior, pois eles estrapolaram o que fora acertado e montaram uma verdadeira linha de produção de estradas, onde todas as etapas estavam contempladas. Além disto escolheram um cenário fora de série, aos pés da rocha Waco, que virou a página principal para a declaração do Ministro das Obras Públicas. Para conseguir tudo tiveram que convencer os empreiteiros e fazer com que toda a equipe ficasse a nossa espera sem almoçar até às 16:00 hs.


Linha de produção em Waco.


Corremos para o aeroporto, onde os pilotos estavam agora bem acomodados na sala de espera, em confortáveis poltronas. Lembrei da cena vista na Base aérea de Benguela e voltei a rir novamente. Ainda faltava uma etapa da viagem. O Comandante Tiago veio até mim e senteciou: “Engenheiro temos que ir direto para Luanda. Devido a hora não posso pousar mais em Malange.” Vi então a hora, eram 16:50 hs, para chegar até Malange eram necessários 40 min de vôo. Chegaríamos às 17:30 hs, impossível então sair de Malange a qualquer hora que fosse, devido a iluminação da pista. O Comandante já me informara que ele estaria proibido de pousar lá esta hora. Relaxamos então e aproveitei o vôo até Luanda. Não havíamos conseguido fechar a programação conforme o planejado, mas conseguimos 70% de ótimas imagens. E isto me fez ficar contente.

Ao chegar no apartamento morrendo de fome (não comera nada o dia inteiro) e tropeçando em meus próprios pés, recebi um telefonema do nosso Diretor: ”Fernando, o helicóptero está confirmado para amanhã”. Quase o mando às favas, mas a vontade de conhecer Angola por ângulos que poderiam nunca mais ter a oportunidade de ver de novo, me fez esquecer todo tipo de obstáculo e enfrentar uma nova noite mal dormida para sair de madrugada outra vez. Valeu a Pena!

Três e meia da manhã em pé novamente, dia de Domingo (20 de maio), quando todas as pessoas normais estão dormindo, acordo e me preparo para sair. A equipe já estava a minha espera. Chegamos à Base e esperamos o Major Frank. Ele chega e começa a espera pela tripulação. Cinco horas da manhã passa a Van com a tripulação RUSSA. “Mas Major, como vamos fazer para nos comunicar?” Foi o primeiro questionamento. “Bem, eles falam inglês, mas tem um deles que entende português e espanhol. Não sei se foi escalado para esta missão.” Bom já comecei a pensar na possibilidade de usar meu inglês macarrônico (que mal ou bem tem me salvado de certas situações). Mais uns dez minutos aparece um carro de passeio com dois homens à paisana, que desconfiei, lógico, serem oficiais. Nos pediram para entrar no carro e nós três (eu, Marcelo e o cinegrafista angolano Junior) nos apertamos no banco de trás com os equipamentos no colo.

Entramos na pista de aeronaves e uma confusão de pessoas com equipamentos foi surgindo a nossa frente. Esses equipamentos se transformaram em aviões e helicópteros militares. O veículo se dirigiu para uma área onde claramente se identificavam as aeronaves russas. Imensos Antonovs, Tupolevs, Illyushins chamavam a nossa atenção, devido ao gigantismo. Equipes dedicadas a manutenção dessas aeronaves estavam a trabalhar já há muito tempo. Todas elas compostas técnicos brancos e galegos, obviamente russos. No meio daquele plantel aéreo identifiquei os nossos Tucanos, com seus desenhos peculiares, na ponta dos aviõezinhos, formando uma boca de tubarão. Eram usados para treinamento de pilotos de caça. O carro parou em frente de um grande helicóptero branco. Nele vi a nossa tripulação trabalhando arduamente para a missão que iria começar dentro em pouco. A equipe era composta por cinco pessoas. Três com macacão cinza, entre os quais, dois mais velhos na faixa de 35 anos e um bem mais jovem, este com seus 25 a 27 anos, que deduzi seriam os pilotos e o engenheiro de vôo. Os dois restantes eram mais velhos ainda (faixa dos 50 anos), estavam à paisana e se dedicavam muito mais a mecânica do veículo que os outros. O Major Frank chegou e entabulou uma conversa com a tripulação, em russo! Isto se deve a boa parte dos técnicos e oficiais de Angola, terem suas formações na antiga União das Repúblicas Socialistas Sovièticas-URSS. E eles ficavam uma ano a mais do que o tempo de seus cursos superiores. Este ano a mais era exatamente para o aprendizado da língua. E isto ocorreu com engenheiros, médicos, oficiais, etc. Principalmente entre as décadas de 70 e 90.

Os Tucanos Brasileiros na Base Aérea

O Major me chamou e apresentou alguns da equipe russa, Esvânia era o jovem piloto e Alexiev era o engenheiro de vôo/piloto e (felizmente) o nosso interlocutor que falava um português misturado com espanhol e inglês. O Comandante não se prontificou em nos conhecer, ficando em seus afazeres, subindo e descendo da aeronave (percebi que se devia a barreira da linguagem). A partir deste momento, todas as nossas conversações com a equipe eram dirijidas ao simpático Alex, que também gostava de filmar com sua câmera. Definição do roteiro, forma da aeronave se comportar na hora das filmagens e como se deveria posicionar em relação a estrada, foram as orientações que nossa equipe passou aos russos. Eles tinham um mapa de Angola, bastante detalhado, que tornou mais fácil a minha tarefa inicial de indicar os nossos objetivos. Mostrei assim que deveríamos ir para o sul pelo litoral até atingirmos a cidade de Benguela. Lá deveríamos filmar a via expressa entre Lobito e Benguela. Depois tomaríamos a direção leste, em direção a cidade de Caála. Nela filmaríamos a estrada até a cidade de Huambo. Daí tomaríamos a direção norte acompanhado o corredor de obras da EN 120 até Luanda.

Foi a hora dos russos nos passarem as informações da aeronave. O helicóptero era um MIG 25, prefixo 1881, da década de 80, e apesar da idade estava muito bem conservado, aparentemente, é claro. Ele iria voar a uma velocidade equivalente a 250 km/h. Não haviam cintos de segurança à mostra. Os bancos eram retráteis e colados às paredes, voltados para o interior. Deveriam caber umas 15 pessoas dentro. Tinha um tanque de combustível reserva no espaço interno, que atrapalhava os passageiros. Havia uma bagunça, parecida com a de uma oficina mecânica, que atrapalhava mais ainda. Alexiev informou que as escotilhas abriam, facilitando quem desejava tirar fotos. Proibiu, é claro, de se jogar qualquer coisa para fora. Como norma de segurança, delimitou uma área, próxima à porta, e proibiu a permanência de qualquer um nela enquanto a porta estivesse aberta na hora das filmagens. Ressalvou ele e Junior, o cinegrafista, o qual passou a explicar sobre o cinto que teria de colocar nele nesta hora. O cinto pegava pelas coxas e pelo tronco com um cabo de aço às costas. Alex me lembrou que deveríamos descer em Huambo para manutenção e abastecimento.


Aeronave da missão - Helicóptero MIG 25

Chegada a hora da partida os russos começaram a se agitar e um dos mecânicos desceu da aeronave para olhar os rotores. Estes começaram a funcionar e a produzir um barulho, que não havia possibilidade de comunicação dentro do aparelho, juntamente com uma ventania muito forte ao seu redor. Olhei pela escotilha e a ventania estava fazendo com que as hélices dos tucanos brasileiros rodassem. O mecânico que estava fora ficou olhando para o rotor principal e fazendo sinal de positivo para a tripulação. As portas foram fechadas e a tripulação se posicionou. O helicóptero começou a taxiar na pista, contornando as outras aeronaves estacionadas. E então começaram as surpresas de uma viagem que ficará marcada para sempre em minha lembrança. Em cada aparelho contornado começou um ritual que me fez repensar a imagem de frieza que eu tinha sobre o povo russo. Todos os membros das equipes de manutenção que estavam em terra e dentro das aeronaves começaram a acenar e a celebrar aquela equipe que partia. Era muito emocionante ver que de cada gigante de metal estacionado, saiam maozinhas das janelas dos pilotos para saudar os colegas em missão. Todos os mecânicos pararam seus afazeres para se perfilarem e desejarem boa sorte a aqueles que partiam. De aeronave por aeronave aquilo ia acontecendo. Realmente aquele calor humano russo foi fundamental para quem estava nervoso devido a responsabilidade do trabalho a ser feito e ao desconhecido que aquela tarefa representava. Aquele episódio me fez ver a importância de tomar cuidado com os pré-julgamentos, principalmente os que se referem a uma população inteira.

O helicóptero chegou a uma área que parecia ser o heliponto. Parou de taxiar e se preparou para voar. Nesta hora me senti desconfortável. A sensação de alçar vôo sem estar atado por um cinto de segurança não foi muito bem recebida pelo meu cérebro. Finquei os dedos nas extremidades dos bancos de metal e esperei a decolagem. Esta se deu muito mais calma e suave do que eu esperava. De repente já estávamos ganhando altura e depois voando por sobre Luanda. O barulho era muito grande e toda a comunicação era feita por sinais ou diretamente no ouvido do interessado. Isto me fez lembrar o ótimo filme “Diamantes de sangue”, que se passa em Serra Leoa, sobre o tráfico de diamantes na África, inclusive em Angola (com Leonardo de Cáprio e Jennifer Connely - wwws.br.warnerbros.com/blooddiamond/). Nele há uma cena onde os protagonistas viajam em um helicóptero do mesmo tipo e conversam normalmente dentro dele. Para mim, depois de passar por aquela situação, isto é pura fantasia.

Passamos pelas favelas próximas ao aeroporto e voamos pelos bairros mais nobres em Luanda Sul. Os dois pilotos (o Comandante e Esvânia) procuraram ir se aproximando do litoral, mas antes tivemos um encontro com as curvas insinuantes do rio Kuanza e toda a vegetação nativa que o margeia, e forma um mosáico de florestas abertas e savanas. Eu ficava cada vez mais deslumbrado e empolgado com a oportunidade que estava tendo. A sensação que eu tinha era a de estar em um velocíssimo automóvel, com a janela aberta, voando a 300 ou 400 metros de altura sobre uma terra quase virgem.


Aeroporto 4 de Fevereiro visto da aeronave.

Interior da Aeronave.

O aparelho chegou então próximo ao litoral da província do Kuanza sul e eu ficava cada vez mais impressionado com a beleza das paisagens. Meu dedo não parava e qualquer olhada era um motivo para bater foto. Comecei a perceber que as praias iam sumindo e o litoral chegava ao mar em alturas variadas, os chamados fiordes. A constatação foi simples:- Até Benguela a maioria do litoral de Angola é alto, sem praias. Isto quer dizer que a beleza do litoral é diferente do nosso. Onde há praias existe uma aldeia ou cidades. E assim foi, passamos pela praia de Caboledo, por Porto Amboim, Sumbe e mais um pouco chegamos a Lobito para o nosso primeiro objetivo.

Chegando ao litoral.

Praia de Caboledo.

Fiordes Angolanos.

Praias

Cidade do Sumbe.


Em Lobito, Rio Catumbela em seu leito canalizado.


Hora da filmagem.


Chegada a Benguela.


Entorno da rodovia Benguela/Lobito

A aeronave se posicionou em um ângulo de ataque e dentro Alexiev saiu da cabina e preparou Junior com o cinto de segurança. Abriu a porta e sentou-o em um banco que se prendia ao lado da porta. O helicóptero partiu para uma posição lateral à rodovia, que permitiu viasualizar todos os seus detalhes. Vi os locais que havia visitado no dia anterior e a calha do rio Catumbela me chamou mais atenção. Ela serpenteava no meio da cidade do Lobito. Passei então a orientar os pontos onde seria mais interessante o registro de imagens. Como esta rodovia não era extensa (15 km), voltamos filmando pelo outro lado após chegar a Benguela e antes de tomar o rumo de Caála.

Ao chegar a Lobito novamente os pilotos fizeram uma curva de 90 graus para a direita e começaram a ganhar altura. Alexiev recolheu os equipamentos de segurança e fechou a porta e voltou a cabina. Começaria ali uma das maiores emoções da viagem. Os pilotos, guiados por seus instrumentos, se voltaram para a direção de Caála e este trecho entre estas duas cidades foi o mais extasiante que eu já tivera oportunidade de ver em todo este tempo passado em Angola. Acho que muito dificilmente verei paisagens africanas tão maravilhosas como vi nestes trinta minutos de vôo. As paisagens se alternavam entre rios com vales belíssimos e montanhas que mostravam sua imponência com lugares inóspitos onde poucos (ou ninguém) haviam estado.




Vales e picos do trecho sobrevoado entre Benguela e Caála.

Nestes vales tentei fixar os olhos para ver se via algum tipo de animal (elefantes sempre foram o objetivo). Nada! Nunca perdi a esperança de vê-los. Mas se mesmo de helicóptero não consigo, está ficando cada vez mais difícil mantê-la. A aeronave seguia diblando os obstáculos das grandes montanhas e nos oferecendo sempre novas e impressionantes paisagens. Nunca foi como nas dezenas de vôos que fiz de avião. O Cacimbo (camada de nuvens cinza que se alastra por toda Angola) e a altitude dos aparelhos nunca nos mostraram a face deslumbrante destas terras.





Maravilhoso, mas e os elefantes hein?!

Alexiev de repente sai da cabine e entra na área onde estávamos. Isto queria dizer que o próximo objetivo se aproximava. Caála estava se mostrando aos poucos com suas planícies. Algumas casas foram aparecendo e logo após a estrada. Esta em estado precário, contra a informação que eu tinha de uma estrada com sua restauração quase completa, faltando apenas alguns serviços para se concluir. A equipe estava esperando que eu me pronuciasse para iniciar as filmagens. Só autorizei quando em um certo ponto percebi o início do revestimento novo na estrada tendo assim a certeza dos serviços de reabilitação. Realmente a estrada estava em ótimas condições . Em meio a isto algumas lindas vistas apareceiam para nossos olhos. Foi assim de Caála a Huambo.

Estrada Caála-Huambo.

Foi interessante chegar daquele modo a Huambo, cidade que visitei por três vêzes, e verificar o ordenamento urbano da cidade. Ela foi projetada pelos portugueses e tinha o nome de Nova Lisboa antes da independência. Verifiquei por cima, toda aquela ótima distribuição de espaços, que havia percebido por terra. O helicóptero contornou a cidade em busca do aeroporto e eu continuei a observar, enquadrando os bosques e áreas verdes urbanas, que havia visto em 2005 e 2006. Chegamos finalmente ao aeroporto e descemos em uma área restrita. Restrita aos aviões, pois logo que descemos fomos rodeados por vendedores de frutas. Achei uma situação totalmente inusitada, uma área de aeronaves com aquele pessoal todo ali. Ao meu espanto, Esvânia repondeu sem dar a mínima importância ao episódio, comprando um saco de laranjas. Estes russos são realmente muito safos . Maior prova disto tive quando o mecânico que foi no vôo começou o seu trabalho de manutenção, abrindo toda a parte superior do aparelho. Ficamos observando aquela peças serem retiradas, limpas e recolocadas no lugar. Fiquei me perguntando se alguma fosse mal colocada que efeito isto teria no vôo. Procurei não ver mais aquilo e sai do aeroporto com Marcelo para tomar umas cervejas. Terminei achando os deliciosos morangos de Huambo, que me foram vendidos bem mais caros que na cidade. Comprei assim mesmo, para ter, à noite, um prazer especial naquele dia sem precedentes.

Cidade de Huambo.
Ao voltar para o aparelho, vi que o mecânico já havia concluido seu trabalho e o processo então seguia com o reabastecimento do aparelho, em outra posição do aeroporto.

Novamente repassei a Alexiev a nossa rota daí por diante. O comandante veio participar da conversa. Eu disse que deveríamos seguir a rodovia de volta a Luanda, margeando-a. Em alguns trechos fixei pontos onde poderíamos pular, pois as obras ali não nos mostrariam nada. O Comandante então me disse que não haveria problema. Interessante este aparelho. Estando com calor pode baixar naquele riacho e tomar um banho; estando com fome, pode baixar perto de uma aldeia, comprar uma galinha, mandar matar e comer; estando com vontade de ir no banheiro, baixa em qualquer lugar que é lá. Tudo pode ser feito.

Levantamos vôo e novamente vi o esquadrinhado de Huambo. Partimos rumo a norte pela estrada nacional EN 120. Então o bicho pegou! O aparelho agora voava baixo e os pilotos ficavam ziguezagueando para fugir dos morros que ficavam ao lado da estrada. Aquilo não fez bem para o meu estômago. Tive náuseas o tempo inteiro, com o agravante de ter que ficar ligado no trajeto da aeronave. Os primeiros locais a tripulação acertou, mas houve lugares que pedi para pular pois nenhuma movimentação de obra havia acontecido. E comprovei o que falara anteriormente. O aparelho se afastava da estrada, ganhava altura e em poucos minutos aparecia exatamente o local que eu queria, sem maiores problemas. Parecia um videogame. Belo sistema de orientação.

Trabalhos de terraplenagem em Huambo e Alto Hama.

Ponte sobre o Rio Keve restaurada (lembram, Crônica 7).

E foi assim que, meio verde devido ao enjôo, passei por Alto Hama, Waco Kungo, Quibala e Munenga, locais que fizeram parte das minhas atividades em Angola, as quais muitas passagens foram relatadas aqui nestes posts.


O Forte de Quibala.

Quibala, cidade destruída pelos conflitos.

Pousamos na Base Aérea de Luanda sem uma viva alma para nos receber naquela tarde de Domingo. Ficamos a observar os russos nos preparativos de checagem final dos equipamentos e vedação da aeronave. Nos despedimos de todos os integrantes da tripulação e uma Van os levou para longe de nós.

Ficamos lá os três no meio daquelas máquinas todas sem ver ninguém. Não adiantava ligar para o Major que ele dizia estar chegando. Fomos ficando, ficando, ficando… Após 45 minutos de espera, nos atiramos na frente da única Van que, por sorte, passou para pegar uma outra tripulação que estava para chegar. Imploramos ao motorista que nos tirasse dali, pois fôramos esquecidos. Ele como bom angolano, não queria abandonar a sua tarefa para nos socorrer. Depois de um longo trabalho de convencimento ele nos deixou fora da Base. Foi assim que terminou estes dias de aventura aérea. Na rua, sem transporte, esperando...

E o urubu, o que tem a ver com a história? Bem, este foi o apelido que ganhei por aqui depois desta maratona toda. Até agora ainda não me assumi como tal, mas se é pra ser urubu, que pelo menos seja Urubu-rei.

Sunday, April 15, 2007

Crônica 12 - Um certo mosquito, futebol e viagens



Faz 15 dias que cheguei para a temporada inicial de 2007 e só agora tive condições de me sentar para recomeçar os relatos do que já passou. Houve, não escondo, um certo desleixo com a escrita, mas estou mais motivado a relatar, devido aos amigos que de alguma maneira estão apreciando o que está sendo informado. Outras pessoas que não conhecia, de lugares diferenciados, estão mandando comentários, algumas vezes positivos! A isto agradeço ao poder da tecnologia, que disponibiliza suas ferramentas para que os amigos, antigos e novos, possam ter acesso ao que deve ser lido, sem intermediários ou desembolso. Boa parte destes agradecimentos vai para a comunidade do site de relacionamentos - Orkut - “Brasileiros em Angola” de meu amigo Álvaro Barros, que espero um dia conhecer verdadeiramente. Álvaro colocou uma indicação para o blog na apresentação da comunidade. E isto aumentou verdadeiramente a visitação na página.

Noto um acúmulo de informações que deveriam ter sido passadas e que as atividades do ano que acabou não permitiram que fossem. Percebo que muitas coisas que aconteceram já não são mais tão inusitadas quanto antigamente. Por isso achei um boa solução resumir todo o resto do ano de 2006 nesta Crônica. Espero ter este poder de síntese e mostrar toda a grandeza desta experiência nesta terra cheia de riquezas e contradições.

Após a inesquecível viagem as províncias de Kuando Kabango e Huíla (relatada na Crônica 11), ocorrida em maio de 2005, nos preparamos para o grande evento mundial que é uma Copa do Mundo. Acompanhá-lo em Angola, seria uma oportunidade impar de verificar todo o impacto deste evento em um país como este. Após os conflitos o Futebol tomava força em Angola e o país estava classificado para o Grupo D, juntamente com Portugal, México e Iran.

Mas antes de tudo começar, tive uma experiência das mais significativas e que não teve nada de gratificante. No início de junho, realizamos um trabalho noturno no Instituto de Estradas de Angola, para concluir um relatório que durou a noite toda, até o início da manhã. O resultado veio uma semana depois, ao final da tarde, com uma apatia no corpo em estado febril e dores nas articulações. Nesta noirte cheguei a meu recorde de febre – 41ºC . Todos que estavam ao meu lado acharam que o termômetro estava com defeito.
Na manhã seguinte fui fazer o “pico” (exame de sangue) na clínica Endiama – financiada pela empresa exploradora de diamantes . Depois de uma espera de 1 hora, o resultado foi o que eu já esperava. Quando um resultado positivo já seria 1xcampo, o meu deu 20xcampo, ou seja quase campo fechado. Malária na cabeça!




Distribuição da Malária no Mundo



Após uma espera de 3 tortuosas horas para a consulta médica, o médico quis ouvir a opinião de um especialista. Fui então internado por mais umas duas horas. Como já estava em Angola a quase 1 ano, o especialista achou que eu já possuia uma certa imunidade e não viu razões para me deixar no hospital, como seria de praxe para um estrangeiro com pouco tempo no país, mas me fez sair com uma receita que parecia mais um tratado médico. Havia remédio para combater a doença (um quinino mais sofisticado), havia remédio para apoiar este combate, havia remédio para o fígado que seria atingido, haviam vitaminas e haviam os anti-térmicos.

O mais difícil de tudo começaria a partir daí. Esta carga diária de remédios fazia miséria no organismo e nos três primeiros dias quase não comi, e o que comi não ficou. O enjôo era terrível e a febre constante. Esta situação continuou por três dias. Três longos dias de calafrios e jejum forçado. No quarto dia de medicação, o apetite foi se começando e os efeitos colaterais dimnuindo, juntamente com os efeitos da doença. Passei uma semana e meia sem poder trabalhar, perdendo a viagem para o Kuito e Menongue. A medicação pesada terminou no quinto dia, mas o restante continuou por uns quinze dias. Passei uma abstinência de alcoólica de 3 meses, para que o fígado pudesse se recuperar.



Ciclo de Vida da Malária



Neste meio, começa a Copa e antes, pude verificar o apego do angolano a sua seleção com o merchandasing em cima dos jogadores e do técnico. As propagandas celebravam a entrada da seleção na elite do futebol e algumas falavam em “botar a mão na taça”. O dia do embarque da seleção para a Alemanha foi espcialíssimo, com discurso presidencial e canhões de laser da ilha em direção a marginal da baía, onde havia sido o evento da despedida. Os jogadores e a comissão técnica pareciam astros de cinema e foram ovacionados por uma grande multidão esperançosa de uma boa participação no Mundial. Sair naquele dia para uma caminhada foi difícil, tal a quantidade de gente na rua. E creia, isto aqui não é muito bom, principalmente se tiver bebida no meio.

O jogo inicial seria contra o principal adversário nesta Copa. O nosso ex-colonizador Portugal. Havia grande expectativa para ele, pois desde a definição das chaves, este jogo estava sendo encarado como mais uma espécie de revanche contra o país que até pouco tempo, detinha a chave de Angola. Frases como -“podemos perder o resto da Copa, mas este jogo temos que ganhar”- ouvi de alguns. Outros mais precavidos tinham um pé atrás, exatamente pela direção “mão-de-ferro” de Filipão Scolari e por alguns jogadores da seleção portuguesa, por pertencerem aos times que eles próprios têm coração e torcem exaustivamente no campeonato português e nas Copas européias. Antes da Copa Angola fez um amistoso contra a Argentina onde perdeu de 2x0. Não fez feio, mas também não deu nenhuma esperança pra ninguém.

O Jogo do dia 11/06/06 foi ruim de parte a parte, mas aquele gol de Pauleta, logo no início do jogo e a incapacidade angolana de articular qualquer tipo de jogada que traduzisse em um ataque, fez com que os mais otimistas levassem um banho de realidade e realmente achassem que foi um grande negócio este placar. Mais pela pífia performance de Angola na partida e menos pelo desempenho de Portugal, que em sua estréia não jogou nada.

Associado a esta torcida, vinha a cobrança pelos resultados do Brasil que o povo angolano jurava que estaria na final. Como nosso selecionado não correpondeu desde o início, a cobraça aumentava. “O Brasil está a jogar muito male, quando ele vai melhorar?”. E explicávamos que na Copa era assim mesmo, havia anos que o Brasil só engrenava na reta final, mas a cobraça continuava.

O Jogo com o México, no dia 16/06/06, mostrou uma seleção angolana menos aparvalhada com o peso da estréia, contado com seus jogadores de meio, como Figueredo, conseguiu conter a forte seleção mexicana e arrancar um suado empate sem gols. Com isto o país veio abaixo e não tivemos coragem de sair para as comemorações. Soubemos de locais que a turba parou o fluxo do tráfego, sendo necessária a presença da polícia para este voltar fluir. Alguns membros da nossa equipe, que moram no condomínio Nova Vida, a 19 km de distância do centro, e têm que atravessar toda uma zona de favelas formadas pelos refugiados da guerra, sairam ao final do jogo e foram surpreendidos por uma multidão eufórica que invadiu as pistas de uma via de ligação e ameaçaram os ocupantes do carro, subindo neste com pneus, não dando condições de trafegar na Avenida. Foi preciso muita perícia e sangue frio para sair daquela situação.

E o Brasil passava pela Austrália, mas não convencia. E mais reclamações dos angolanos – “O Brasil assim não cheeega! Está muito maaale!”

No jogo do dia 21 de junho, Angola tinha uma chance de se classificar para as oitavas de final. Tinha que vencer o Iran e esperar que Portugal vencesse o México por mais de 1 gol de diferença. Neste jogo vi até onde queria chegar o técnico Oliveira Gonçalves. Angola fez seu primeiro gol em copas do mundo através de Flávio e foi um estupor para a nação. Ver a emoção das pessoas foi impressionante. Um gol para esta nação significava muita coisa. Significava que estavam ali não só para participar, mas para influir, fazer diferença e realizar sonhos. Para dizer que apesar de tanto tempo nos porões da história, bastou apenas 5 anos para que pudessem aparecer para o mundo de forma determinante. Pessoas de nosso convívio chegavam a chorar de emoção.

O que nos irritou na partida foi o medo do técnico de tentar um esquema de jogo mais aguerrido, que pudesse fazer o time conseguir subir mais um degrau nesta história. Oliveira Gonçalves pareceu que se apavorou com o gol que sua equipe conseguiu e terminou tirando suas peças chaves e colocando jogadores de marcação para garantir um jogo que estava apenas no primeiro tempo. Não deu outra, o Iran encurralou Angola, empatou e quase ganha. Era notório o alívio do técnico ao final do jogo, achando o máximo o seu feito de levar Angola ao terceiro lugar do grupo D, quando o que ficou evidente foi sua falta de coragem e sua pequenez em relação a objetivos.

O povo de Angola felizmente não concordou com minhas impressões sobre o seu técnico e a performance do seu selecionado. Todo o país foi unânime com a opinião de Oliveira Andrade e o importante foi não fazer feio no Campeonato do Mundo– Palavras do próprio Presidente José Eduardo dos Santos – no que o povo aquiesceu e saiu as ruas para aplaudir seus conterrâneos que chegavam de tão árdua batalha.

Após a saida da seleção angolana da Copa, nos restou o Brasil com sapatos altos em vez de chuteiras. E como ninguém esqueceu, é uma página a ser virada no nosso futebol. Interessante contar as reações dos angolanos em relação a nossa seleção. Todos a quem perguntava diziam que iriam torcer por nós canarinhos. Esta determinação não resistiu ao próximo jogo, nas oitavas de final. Gana era a bola da vez e o país se uniu contra nós.

Gana representava a nação africana e de forma nenhuma poderia perder o apoio dos angolanos. Eu ainda tentava convencer os mais conhecidos – “ Mas, quantos ganeses você conhece? - perguntava eu. “Nenhum” – era a resposta de todos – “ Mas temos que apoiar os africanos”. E eu pensava nos nossos laços de fraternidade com eles…os argentinos! E ficava indignado.

Passou-se Gana e vieram os franceses. Fomos ver o jogo em um clube onde os brasileiros ligados a engenharia civil iriam se encontrar. Juntos vieram angolanos trazidos por estes para torcer pelo nosso país. Desde o início da partida nenhum deles torceu. Afrontaram-nos de propósito e torceram pela França, que deu um banho na nossa seleção. Ao final do jogo nós brasileiros estávamos frustados com a seleção e revoltados com os angolanos, que continuavam a nos provocar. Então um grito uníssono e repetido de - “É penta! “ - ecoou no pavilhão do clube, abafando a galhofa dos africanos que tiveram que se render a nossa tradição e sairam do clube acompanhados por todos que gritavam na seqüência – “Sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor”. Foram reações tolas que conseguiram irritar os angolanos e limpar a alma dos verde-amarelos. Eu de minha parte não vou esquecer uma situação destas, que proporcionou um embate frontal de opiniões que nos levou a reações nacionalistas para defender a nosso orgulho. Por qualquer motivos sejam, principalmente o futebol. Aqueles momentos foram o melhor que aquela seleção pôde nos proporcionar na Copa de 2006.

Passado o Campeonato Mundial, voltamos a nossa rotina (sem rotina) de viagens. Voamos novamente para Huambo para percorrer e analisar o trecho que começaria 20 km dali. Seria a estrada EN 240, ligando as cidades de Caála e Ganda. Em Huambo a temperatura não estava tão fria como a da primeira vez no mês de setembro. Dormimos no mesmo hotel Konjevi e uma ótima notícia foi a estação dos morangos que estava no meio. Foi uma verdadeira farra de morangos. Morangos com mel, caipirinha de morango, licor e sobremesas. Nunca vi morangos tão doces e, por não terem estrutura de venda para longe, não havia valor agregado. Tudo o que se produzia era vendido na região mesmo. Desta forma foram os mais baratos que já comprei.



Os mais deliciosos Morangos !


Iniciamos os trabalhos em duas carrinhas, a primeira com nossa equipe (eu, Sidclei e Janilson), e a segunda com uma equipe da Coba, empresa consultora de Portugal, encarregada da elaboração do projeto executivo. Foi interessante a convivência com o engenherio português Paulo Jr. Ele observou a nossa metodologia de trabalho e nós a dele. Houve muita troca de informações onde ganhamos todos, inclusive quando estas informações eram trocadas nas rodadas de cerveja a noite no restaurante Imperial em Huambo.


Caála vista de cima.



Início dos trabalhos em Caála.

A região era uma repetição de adjetivos que tanto já foram usados aqui. Belezas naturais eram vistas por nossas janelas e todas as mudanças de visão poderiam virar belas fotos. Imagem de Caála. Iniciada em Caála, a 20km de Huambo, a estrada segue para oeste na direção de Benguela, ou do Oceano Atlântico. Passa por cidades que tiveram uma certa punjança antes dos conflitos.

PaisagensAngolana


Na cidade de Ucuma fôra instalada, na década de 60, uma indústria de papel que mudou a forma de ocupação da região, criando-se vilas e ocupando-se cidades. Florestas de eucalíptos e pinheiros foram plantadas. Com os conflitos a região fora ocupada por forças da UNITA e as batalhas por sua posse não permitiram que o empreendimento prosseguisse. Atualmente o que se econtram são vilas fantasmas, ou invadidas, cidades desestruturadas, e uma imensa fábrica à beira da estrada, com seus equipamentos obsoletos e inoperantes no seu interior. As florestas estão com árvores de grande porte esperando corte e o conseqüente replantio.

Florestas de eucalíptos e pinheiros.

Vilas abandonadas.

Ucuma.

Haviam 12 pontes no trecho das quais 6 foram destruídas e seus destroços encontram-se ainda na estrada como monumentos a barbárie da época. Marcações das empresas de desminagens estão nas estradas, principalmente na divisa das províncias de Huambo e Benguela. Chegando a Ganda, após ter passado pela comuna de Catumbela, onde vimos uma Igreja construída em cima da rocha, encontramos um aeródromo com inscrições das mais temerárias incicando que toda a margem da pista estava transformada em um campo minado que ainda não fora extinto. O problema era que não se divisava o limite da pista do aeroporto e da estrada, ficando difícil de saber onde estavam as minas.


Ponte do trecho.


Igreja sobre laje rochosa.

Chegamos a Ganda, e nos supreendemos que depois de toda esta Odisséia, ainda encontramos uma cidade organizadinha como ela. Incrível tudo que foi feito por Angola pelos portugueses antes da guerra. A cidade é bastante aprazível, com ruas e avenidas largas e um clima tropical de altitude, que deixava uma temperatura bastante agradável. Haviam praças enormes e as ruas eram todas arborizadas. Foi excelente a supresa para a equipe. E custa acreditar que depois de encontrar só desolação e abandono, durante o trajeto, ainda surjam cidades como Ganda, que nos leva a perguntar como subsistiram a tudo, ainda se mantendo íntegras?

Depois de tudo encontramos Ganda.

Iniciamos a nossa volta, com o trabalho concluído, às 15:30 hs, percorrendo todo o trajeto que havíamos estudando. A noite chegou quando ainda estávamos na estrada. E noite na estrada em Angola, é sinônimo de Lua e céu estrelado e só. A escuridão só não é total devido a esses dois elementos iliminado e liminosos da natureza. Todas as aldeias e comunas estão sem iluminação. Nesta viagem então nos surpreendeu uma fazenda toda clara, com a entrada principal e suas dependências totalmente iluminadas por postes com lâmpadas de mercúrio. Sabíamos que aquela luz toda era fruto de geração particular. Perguntamos de quem era a tal fazenda, que era um oásis de luz enquanto todo interior de Angola estava apagado. A resposta veio sem nenhuma emoção e foi recebida com o mesmo entusiasmo – “ É do governador da província do Huambo”.



Continua....

Saturday, November 11, 2006

Crônica 11 - Rumo a Menongue, Lubango e Namibe.

Esta temporada está sendo umas das mais empolgantes, tanto pelo conhecimento maior da Capital Luanda, como pelas viagens que estão se tornando mais interessantes.
Estes fatos que agora relato aconteceram ao final do mês de maio entre os dias 25 e 29. Estamos, a partir desta data, a explorar os locais mais a oeste do país. Esta jornada começa na província de Kando Kubango, que fica localizada na extremidade sudoeste do país, região de altitude acima dos 1.300m. São chamadas por todos aqui como as “Terras de Fim de Mundo”, devido a distância e a dificuldade de acesso. O trecho começa na cidade de Menongue e vai até a cidade de Matala, situada na província do Huíla a 320km de distância. Se fôssemos de automóvel a distância para se atingir as Terras de Fim de Mundo, seria em torno de 2.000 km de estrada em péssimas condições.
Mapa
Devido a urgência, o INEA fretou um jatinho para levar a equipe, o que tornou a viagem mais interessante pela proximidade com os pilotos e aeromoça, todos angolanos. A nossa equipe era composta de seis pessoas. Os brasileiros eram os de sempre: eu, Sidclei e Janilson. Os angolanos eram também em número de três: Armando, Célio e Antônio Pedro. A viagem não poderia ter transcorrido mais tranqüila e confortável através do céu de brigadeiro que pairava sobre Angola naquela manhã de 25 de maio. As paisagens vistas de cima, mostravam as terras inexploradas cobertas de florestas abertas e savanas típicas da África que vemos nos filmes. Fui avisado pelos engenheiros do INEA da possibilidade de encontrar os elefantes que tanto procuro e com um agravante. Nestas áreas foram encontrados, recentemente, leões e nos pediram para termos cuidado, embora o engenheiro Waldemar Alexandre (uma das pessoas que eu considero que mais conhece e entende deste país) tenha me tranqüilizado. Normalmente, em seu habitat,os leões fogem ao pressentir a presença de humanos, a não ser que sejam atacados. Pediu entretanto, que se fosse necessário dormir na estrada, que seja dentro dos carros. Nada de acampamentos! Em relação aos animais angolanos, eu já formei a minha idéia após percorrer quase 70% do país. Se eles estão voltando, após os conflitos, não é próximo às estradas que eles vivem ou caçam, não estes de grande porte.

Visualizar Menongue de cima me causou uma sensação de isolamento. Como a população deveria sofrer para fazer jus àquela alcunha de “Terras de Fim de Mundo”. Situada no meio da África, a melhor opção de acesso a Menongue é por ar. As estradas que partem de lá, devido precariedade, quase que não têm destino certo e só servem a automóveis de médio e grande porte. É difícil sentir na pele este isolamento quando em nosso país, mal ou bem, conseguimos trafegar para qualquer lugar que quisermos. Estes pensamentos tomariam mais corpo no decorrer dos trabalhos, mesmo porque era para isto que nós estávamos chegando ali. Para, com o nosso trabalho, ajudar na resolução do problema.





Menongue do alto - isolamento

Quando o jatinho aterrisou e pudemos descer naquele planalto africano, as primeiras boas-vindas nos foi dada por um frio de 12º que fez doer a alma. Nos despedimos da equipe de bordo e encontramos com a equipe de terra que nos iria acompanhar naquela jornada. Era composta por José Maria e Florêncio dois Directores Provinciais das províncias de Kuando Kubango e Huíla, respectivamente, devidamente acompanhados de seus comandados que totalizavam algo em torno de 15 pessoas.

Saímos do aeroporto com essa equipe tamanho gigante (a maior que já tivemos nos assessorando) a bordo dos Land Cruiser´s da Toyota. Não queria fazer nenhuma propaganda aqui, mas o que vi estes carros fazerem nesta viagem foi de espantar. Estou comparando suas qualidades as de três máquinas possantes: o bode, o camelo e o boi. O bode pela forma como eles “saltaram” pelas rochas das rampas íngrimes nas tomadas do rio Cutato. O Camelo, pela autonomia com que ele consegue ir de norte a sul do país sem reabastecer e o boi pela carga (pessoas mais mantimentos) que levou garantindo o mesmo desempenho e preservando as características dos animais anteriores. Além disto o carro era anfíbio, pois atravessou todos os rios e riachos que se colocaram em seu caminho. Isto se deve ao seu suspiro (escape) elevado acima do nível de visão do motorista.

O Land que são três.

Menongue embaixo trás novas sensações que se ampliam quando combino com tudo que estava pensando no avião sobre o isolamento. Reconheci em sua população além dos aspectos anteriores, os do desafio e da persistência de viver em um lugar tão ermo. Apesar de ser a capital da província, não havia prédios. As ruas tinham muita poeira, pois nada consegue deter o vento nesta área. O frio faz com que tudo caminhe mais devagar, causando no fim, o mesmo efeito do calor intenso ou do sol a pino nas pessoas. Em alguns locais se viam praças arborizadas e as sedes das Instituições em seus contornos, lógico bem mais acanhadas do que em outras cidades como Lobito, por exemplo. Realmente é uma cidade para fortes, como eram fortes os habitantes das cidades do interior do Brasil a 100 ou mesmo 50 anos atrás. Uma viagem ao interior de Angola é sempre como viajar através do tempo. Podemos nos deparar com coisas que nos lembram a infância mais remota e, como nesta viagem, com coisas anteriores a nossa gestão neste mundo.

Menongue vista de baixo - Cidade para fortes.

Após rodar pela cidade e conhecer a Direcção Provincial do órgão de estradas, nos dirigimos para a ponte sobre o rio Luauaca, que seria o início dos trabalhos. Esta seria a maior extensão que iríamos trabalhar até então. Uma odisséia de 320,0km. Nosso mestre angolano Engenheiro Waldemar Alexandre nos preveniu que haveriam situações onde a estrada sumiria, se tornando uma imensa planície de savanas, sem definição do caminho a seguir. Isto era péssimo pois nada ainda nesta região fora plenamente desminado.

Imensas savanas.

Então o risco de se voar pelos ares era grande. Para dar mais segurança, um dos ocupantes da expedição era um guia experiente no trajeto, que sabia onde estavam os caminhos, e principalmente que direção tomar nas inúmeras bifurcações que encontraríamos . Os primeiros vinte quilômetros foram realizados em excelentes condições, já que a plataforma da estrada estava firme e bem definida. Daí em diante tudo piorou e a “estrada” entrou em uma zona arenosa que não era qualquer veículo que podia trafegar. Foi aí que o nosso Land mostrou as suas potencialidades. Naquela areia fofa a tração nas quatro rodas foi excencial para conseguirmos nos locomover e vencer areais incríveis de quase 5km.

Estrada, desvios e areais.
Em todo o trecho havia a pré-sinalização das equipes de desminagens alertando para o perigo de minas nas proximidades da estrada. Um dos ocupantes da equipe que veio de Luanda era o nosso grande amigo Armando Pratas, responsável pela desminagem das estradas a nível nacional. O nosso guia vinha atento e direcionando a expedição por todo o percurso. Demonstrou segurança em todas as encruzilhadas, exceto em uma delas, onde o nosso motorista Antônio Maria, Director Provincial da Província de Kuando Kubango, perguntou e o guia titubeou. Ele parou e fez mensão de continuar segundo seu próprio instinto. Ao perceber isto, Armando Pratas abriu a porta traseira e pulou fora do carro antes que ele realizasse seu intento. Então Antônio continuou... Tudo ocorreu de maneira tão rápida que não deu tempo de pensar no que estava acontecendo. E todos os que estavam no carro experimentaram um frio estranho na barriga. Aquele que dá quando se tem a sensação de entrega total da própria vida nas mãos Daquele que está acima de tudo e de todos. Fechei os olhos e esperei. Ele escolheu entâo, me manter ainda nesta vida fazendo com que o Land Cruiser atravessasse toda a extenção do desvio sem maiores problemas. Esperamos Armando retornar ao carro vendo ele pisar na mesma trilha que o nosso “bode a motor” deixara na areia.

A expedição seguiu neste primeiro dia até às 17:30 hs quando chegamos a localidade de Cuchi já escurecendo. Procuramos o administrador local que nos forneceu acomodações e alimentação em sua própria residência e em outra casa na vila. Saimos pela noite para encontrar o restante da equipe, que ficara na tal casa, e os encontramos já bebendo em um bar. O frio era de matar e as estórias dos conflitos se sucediam no esvaziar das garrafas dos vinhos baratos que eram vendidos no bar da vila. A cada rajada de metralhadora um gole de vinho era ingerido. E então apareceram personagens fantásticos do calibre de um coronel que atirava em sua própria tropa perfilada, matando uns dois antes de ir para as batalhas e um sargento que avançava sozinho no meio aotiroteio e as balas nunca o conseguiam atingir. Quando parava o tiroteio ele balançava a camisa e as balas caiam, “E ele está vivo pra não me deixar mentir”, contou Pistola, o braço direito do Director Florêncio do Huíla.

Único branco da equipe de angolanos, Pistola tem sempre uma história para contar. Seja de guerra, seja dos animais de seu país, seus fatos estão sempre emoldurados por mímicas e trejeitos que fazem sua assistência rolar de tanto rir. Contou-nos, com seu sotaque carregado das terras do Cunene, histórias da sua adolescência. Quando era rapazinho os pais estavam com receio de seus dotes para sobreviver naquela terra com conflitos que explodiam em todos os lugares. Então seus pais o jogaram no rio Cunene para ver como ele se saia. Diz Pistola que nadou de uma margem a outra do rio ajudado pelos jacarés com sua mãe observando. Ao final da empreitada, o jacaré o jogou para junto dela e então ela lhe disse “Este está pronto!” Ele faz graça até quando fala absurdos do tipo: “Estou com saudades da guerra. Ouvir uns tiros de vez em quando seria bom.”

Ao final das histórias de Pistola, nos encaminhamos para a casa do administrador, naquela noite sem Lua e sem iluminação, tentado não sucumbir ao frio e aos efeitos do vinho. Olhei para o Céu e pude presenciar uma quantidade de estrelas que eu nunca havia visto. Nem na infância, em Vitôria de Santo Antâo-Pernambuco, haviam tantas. Olhávamos e era possível divisar nuvens delas com seus brilhos longínquos. Era de estupefar!! Um verdadeiro espetáculo gratuito. Os astrônomos falam que só é possível divisar cerca de 3.000 estrelas em qualquer lugar. Não contei, mas estou apostando que ali no Cuchi, naquela noite, vimos mais que o dobro disto (para ter pensamentos sobre a quantidade das estrelas no céu é porque o vinho realmente pegou!).

O frio quando fomos dormir era algo que ainda não sentira (deveria estar em torno de uns 8º). Quando acordei acho que estava em torno de 10º. Iniciamos os levantamentos na ponte de mesmo nome da cidade – Ponte sobre o Rio Cuchi – que, para variar, estava destruída. Deveriam ser 6:00hs da manhã e perto do rio a temperatura diminuia mais ainda. Quando descemos para ver o estrago na ponte o frio tirava vapores gelados do rio, oferecendo uma visão magnífica. Vimos pessoas tomando banho naquelas águas e eu não entendi como aquilo era possível. Ao voltar para o carro, minhas mãos estavam duras. Eu simplesmente não conseguia escrever. Foi necessário ligar o aquecedor do carro para que conseguíssemos iniciar os trabalhos. Eu coloquei minha mão congelada na frente dele. Só assim foi possível mexer os dedos.

Rio Cuchi no frio da manhã.

Os trabalhos se reiniciaram e a estrada não nos deu nenhuma trégua. Todas as dificuldades do dia anterior permaneceram nesta manhã. Areais imensos, cursos dágua sem pontes e com nível d´água alto (valei-me meu Land!!), estrada se dispersando no meio das savanas, etc e etc. As aldeias se sucediam e suas casas eram feitas de materiais diferentes do restante do país. Era uma taipa mais cinzenta (siltosa) e o telhado feito de palha. A medida que avançávamos fui percebendo uma característica importante nas populações lindeiras. Nesta região encontramos as tribos mais amistosas e receptivas de Angola. Isto começou na província de Kuando Kabango, mas se acentuaou mesmo quando passamos para a província do Huíla. Sempre que os aldeões nos avistavam todas as crianças da aldeia vinham acenar para os veículos. As crianças quando me vinham na janela diziam “Chidele”, que quer dizer branco. E todas corriam com alegria no rosto para nos saudar. Isto não aconteceu em região nenhuma aqui de Angola. Apenas no Huíla.

Igreja de aldeia

Crianças da Huíla.
Aldeias do Kuando Kubango

Encontramos o asfalto na cidade de Kuvango, no Huíla, e então, apesar das péssimas condições, os trabalhos transcorreram com mais velocidade. Almoçamos na beira da estrada e terminamos o dia na aldeia do Dongo onde conseguimos pousada para dormir. Realmente não sei se aquilo era uma pousada ou um bordéu. A decoração era desse último, mas não vimos as “funcionárias” integrantes deste tipo de estabelecimento, embora ache que se tivéssemos perguntado por elas, com certeza apareceriam. Como não tínhamos escolha, era ali ou dormir ao relento, fomos deixar as bagagens nos quartos. Como já estava quase acostumado ao estilo africano de acomodações, achei normal ter que dormir com Janilson e Sidclei em duas camas de casal. O pior era o banheiro comunitário. Só a nossa expedição era composta de 15 pessoas, fora os que já estavam na “pousada”. Logo se fez uma fila para usar a tal “casa de banhos”(denominação para banheiro aqui e em Portugal). Normalmente, nestas condições, não tenho encarado este tipo de instalação, mas como já havia vindo de uma banguela na casa do administrador do Cuchi, e por achar que não me aguentaria se não tomasse banho de novo, encarei de frente todo o conjunto sanitário. Depois de jogar aquela água gelada no corpo com a caneca, a sensação era de que havia me tornado um esquimó por ter conseguido suportar aquele banho sem precedentes. Estava completamente congelado, mas orgulhoso de ter superado certas aversões.

A "Pousada" e sua decoração.

Ao amanhecer, após matabicharmos (este é o termo para “tomar café-da-manhã” por aqui, acredite), continuamos com os trabalhos que transcorreram de forma mais ágil, já que a estrada estava ajudando, sem muitas intercorrências a serem assinaladadas. Tudo continuou como antes: estrada asfaltada em más condições, mas com trafegabilidade, vilas contruídas com algumas diferenças básicas, pois em algumas os aldeões faziam um pequeno armazém no centro, com o piso elevado, para proteger os mantimentos. Cheguei a simpatizar muito com certas disposições das casas, onde o conjunto se parecia com um autêntico arraial. Imaginei uma festa de São João com a vila toda decorada e a bandinha tocando no centro. Nada mais pitoresco! A acolhida de cada vilarejo também não mudou, indo além da simples procura para pedir comida e outras necessidades. Falamos com um Soba (chefe da aldeia – veja crônica 6), que fez questão de mostrar sua casa com a bandeira do partido MPLA asteada à frente.

Aldeia arraial

Em outra das vilas, encontramos um menino chamado Djoe que havia construido seu próprio patinete. Este não devia a nenhum dos comprados em loja. Djoe posou feliz para a nossa foto com sua obra-de-arte travestida de brinquedo e se tornou uma das visões mais interessantes e bonitas da viagem, símbolo daquelas crianças afetuosas que, mesmo nas condições em que vivem, não deixam de ser o que são, crianças!

Djoe e seu brinquedo

Estávamos chegando ao fim dos trabalhos e isto queria dizer que nos aproximávamos próximos a uma cidade de porte médio chamada Matala e a 170km de uma grande cidade chamada Lubango, capital desta província tão deferenciada do resto do país. A província do Huíla, onde passaríamos o resto do final de semana em sua capital (era sábado 24 de maio de 2006), regressando a Luanda na segunda.

Ao chegarmos a Matala vimos uma extensa barragem logo na entrada da cidade, cujo topo da parede serve como ponte para vencer o Rio Cunene. Este rio já foi encontrado por nós quando chegamos a Província de mesmo nome do rio. A Província do Cunene foi objeto da Crônica 5 e pode ser acessada em http://www.fafm86.blogspot.com/ . Atravessamos mais uma vez este rio que contribui para a elevação do nível de vida da região, onde diversos projetos de irrigação estão sendo desenvolvidos a partir dele.

Barragem em Matala

Em Matala concluimos os trabalhos e foi possível relaxar após a estrada mais extensa que trabalhamos. Ao todo 319 km de levantamentos. Isto merecia uma comemoração, que foi realizada de forma singela com todos os 15 ocupantes se cofraternizando ao sabor de cerveja na praça de Matala.

Pegamos o rumo para Lubango. Esta estrada, em seus próximos 132km, estaria sendo executada pela Empresa brasileira Andrade Gutierrez, que estava dando uma verdadeira aula de reabilitação de rodovias. Aliás, em matéria de construção pesada os brasileiros dão show. Nada é igual ao que é produzido pelas empresas nacionais aqui em Angola (e em boa parte do globo). Isto eu posso atestar. Não tem portugueses, nem chineses que se sobressaiam.

Vista para o Cristo.

Detalhe da vista.

Chegamos a Lubango quando avistei ao longe o Cristo Redentor em cima de um monte. A visão mais espetacular, no entanto, seria do Cristo para a cidade. E esta nós a teríamos no dia seguinte. Lubango é uma jóia rara perante as cidades angolanas. Muito bem dividida e com avenidas largas, a região onde está implantada é privilegiada. É plana com uma cadeia de montanhas chegando a seus limites, o que dá uma visão sem precedentes para que está na cidade, ou para quem está sobre as montanhas. O clima é sempre frio, em méda 13 a 15ºC. Cheia de monumentos, hotéis e restaurantes, esta é uma região que pode ser explorada turisticamente. Os conflitos não chegaram a estas paragens, o que quer dizer que Lubango nada perdeu nem com pessoas nem com infra-estruturas. Os prédios permanecem sem marcas, as pessoas têm uma outra forma menos traumática de encarar a vida. O astral da cidade é outro. Fomos almoçar em um parque de convenções (onde até local para touradas havia!) e lá vimos em uma parede um roteiro já consagrado de atrações na região. Devido a estes aspectos, a cidade recebe invesitimentos estrangeiros tanto em hotéis, como em estâncias, fazendas e indústrias alimentícias. Nada lembrava a confusão de Luanda. Parece que aqui estávamos em uma Angola que, depois de sua independência, manteve tudo o que havia e procurou evoluir sempre. Uma outra visão de país.

Visões de Lubango - Palácio Provincial

Visões de Lubango - Ruas e Cinemas

Visões de Lubango - Monumento

Centro de Convenções


Procuramos não exagerar, mas também não quisemos qualquer instalação para passar o fim-de-semana, já que havíamos sofrido toda sorte de privações nestes dias.
Fomos a três hoteis cada um melhor do que o outro e decidimos ficar no Casper Lodge, situado na subida da serra em um dos locais mais aprazíveis de Lubango. O Hotel ocupava uma ampla área com chalés contornando a piscina. Ele tinha toda a estrutura de hotéis de inverno. Tomei um banho e fui descansar. Acordei umas 3 horas depois com fome. Fui procurar o restaurante. Saí de bermuda e camiseta para a noite estrelada que estava acima do hotel todo iluminado com spots ao redor da piscina. Saí curtindo aquela beleza de lugar, me encaminhando para a portaria para pegar informações. Alguma coisa me incomodava e eu ainda não havia percebido o que era. Ainda estava, meio atordoado do sono e da viagem extenuante. Cheguei na portaria e encontrei Sidclei conversando animadamente com o recepcionista e o porteiro. Os dois angolanos quando me viram olharam-me dos pés a cabeça assustados. Sidclei, que estava com a palavra, não escondendo o espanto, lançou de bate-pronto: “E este aqui é meu amigo russo Fernandovik”. Foi aí que eu fui entender o que me incomodava. Um frio de rachar estava fazendo na noite de Lubango e eu ali, na maior tranquilidade, de bermuda e camiseta, com todo mundo ao meu redor totalmente encapuzado. Corri para o quarto para me agasalhar e o casaco que coloquei não deu vencimento ao frio. Claro que tive que escutar toda a gozação dos meus companheiros sobre a minha demência sensitiva.

Casper Lodge - sem precedentes em Lubango.

Casper Lodge à noite.

O restaurante indicado ficava fora do hotel uns 50m adiante. O local era uma mistura de parque, pousada, restaurante e zôo (haviam animais em todo o terreno, inclusive diversos cervos soltos). O restaurante era algo muito especial, como tudo naquela cidade. Era um ambiente não muito amplo, com paredes baixas e o teto em duas águas, como uma taverna. Aliás toda a sua decoração era neste estilo, privilegiando o aconchego para livrar os ocupantes de temperaturas baixas. Garrafas de vinho colocadas em diversos locais, servindo inclusive de elemento de decoração e, é claro, abundantemente em cima das mesas. Os móveis eram grandes, pesados e escuros, e a iluminação era indireta, com alguns lustres espaçados para dar maior sensação de intimidade. A cozinha era ao fundo e não havia menu. O garçon nos convidava a escolher os pratos em um expositor lotado de gelo, próximo a cozinha, com os peixes, as carnes, crustáceos (lagostas enormes!), aves e sobremesas mostrados ao natural. Escolhi um peixe assado e não me arrependi. Estava na cara que tanto aparato na decoração, não deveria ser a fachada de comida ruim. Todos os pratos estavam muito saborosos e o vinho temperava tudo. Soubemos que os donos eram da África do Sul.

Restaurante vizinho ao Casper Lodge

Voltamos caminhando, tentando nos proteger de uma das sensações mais extremas de frio que eu já senti. Era quase uma da manhã e a madrugada em Lubango, naquele final de maio, estava para esquimó ver.

O dia seguinte nos reservaria surpresas sem precedentes. Acordamos e vesti o resto de roupa limpa que tinha na mala, ficando uma combinação, vamos dizer…inusitada. Calça verde e camista laranja. Será que dá pra lançar uma nova tendência? Fomos tomar o excelente café da manhã do Casper Lodge. Não precisamos esperar muito para que os nossos anfritiões, Florêncio e Antônio Maria, chegassem e nos levassem a uma verdadeira maratona turística pelas terras das províncias da Huíla e Namibe. Neste passeio variamos de 1200m de altitude para o nível do mar. As temperaturas variaram simplesmente de 12º até 45º C com clima desértico.

Primeiramente subimos a serra para visitar o Cristo Redentor e observar a cidade de cima. Foi uma bela visão, como é possível de se ver nas fotos. A cidade é plana e de onde estávamos podíamos ver todo o vale onde Lubango estava implantada.
Para quem tem o Cristo Redentor no Rio de Janeiro, o de Lubango vale mais pelo significado e pela vista, mas o monumento não deixa de ter sua beleza.

Um dos componentes da equipe tem pânico de altura e não abdicou de ficar colado à parede do monumento, sem dar atenção a gozação em volta. Confiou apenas no Director Florêncio que o chamou para tirar uma foto observando as divisões da cidade.

Chegando no Cristo.

Finalmente o Cristo de Lubango.

Vistas de Lubango.

Rumamos então para oeste por uma estrada perfeita, diferente de todas as que trafegamos até então. Começamos a conhecer uma parte diferenciada que mostrava um outro conceito de país. Nessa área tudo funcionava, tudo era bonito. Haviam indústrias que funcionavam instaladas em regiões de clima agradabilíssimo. Terminamos por chegar em um dos nossos objetivos para este dia. A descida da Serra da Leba. A Serra da Leba é um gigantesco paredão que divide a região planáltica, de altitudes elevadas, para a região desértica, que fica no litoral sul de Angola. O mais sensacional desta Serra da Leba é exatamente a forma que a estrada utiliza para descê-la, ou seja, além da paisagem, que é de tirar o fôlego, literalmente, o projeto geométrico da estrada é singular. Existe um ponto privilegiado que permite contemplar as duas maravilhas.

A primeira é composta da visão de toda a cadeia de montanhas e de vales que compôe uma paisagem natural, que aos olhos de um artista pintor se tornaria uma daquelas pinturas que custamos a acreditar que existe mesmo, achando que só pode ser obra da imaginação privilegiada de um visionário.

A segunda maravilha é obra da técnica, da habilidade e, principalmente, da sensibilidade de um outro artista, o engenheiro de projetos geométrico que concebeu esta obra-de-arte que impressiona até os leigos, através das curvas insinuantes e quase sensuais, que se utilizam do relevo, por linhas de menor declividade, a transpor enormes altitudes.

Serra da Leba.

Paisagem ao lado sa Serra da Leba.

No mirante ainda tive o primeiro contato com uma das populações básicas da Huíla. Tirei fotos com os meninos Mumuias, tribo de criadores de gado, que vivem nesta nas áreas da província do Namibe. Não entendi nada do seu dialeto. Eles não falavam nada em Português. O director Florêncio nos contou as enfrentações que existem nestas regiões, cheia de povoações baseadas na pecuária, que se enfrentam pela a posse do gado. Ocorre inúmeros casos de furtos de gado de uma população com outra, sendo o povo Mucubai os maiores larápios de todos. Este povo é nômade e, na região, se aproveitam de sua pouca identificação com o lugar onde estão para se apropiarem do gado dos outros povos. Devido a isto, os conflitos entre estes povos, são uma constante na região, tendo que a polícia intervir sempre para apaziguar os ânimos.

Os meninos Mumuias.

Descer a Serra da Leba foi uma experiência inigualável, que pode ser revivida nas fotos abaixo. Podíamos verificar, com detalhes, os viadutos e os muros de arrimo usados no projeto, enquanto a vista das montanhas mudava na janela do veículo.

Descida da Serra.

Viadutos da descida da Serra da Leba

Continuação da descida da Serra.

A temperatura aumentava consideravelmente. Quando chegamos embaixo verificamos que tudo mudara com a mudança de clima. Na proporção que rodávamos a sensação térmica se tornava cada vez mais desconfortável até o ponto de abrirmos todas as janelas do carro, deixando o bafo quente sair. Passou a circular uma brisa nada agradável e lá fora a vegetação escasseava, fazendo com que a paisagem fosse tomada por uma aridez inóspita, onde o verde foi rareando até não mais existir. Pela estrada observávamos caçadores mucubais e mumuilas, com lanças vestidos de sarongue. Seguimos rodando naquele deserto, por uma estrada que se mantinha impecável, onde não era possível acreditar que era o mesmo país que necessitava ser reconstruído e passava extremas dificuldades, com as quais já estávamos nos acostumando.


Deserto da província do Namibe.


A rodovia entrou em uma rampa descendente acentuada, com curvas fechadas. Ao final deste trecho vimos uma concentração de verde em torno de um lago pequeno. Ao redor deste oásis havia vários habitantes. O Director Florêncio parou o carro ao lado de um grupo de pessoas. Eles estavam vestidos como os caçadores, e como a tradição nestes povos, sem a parte de cima das roupas. O nosso director falou no dialeto mucubai e explicou quem éramos. Pediu para que tirássemos fotos com as mulheres. Toda a delegação se postou, freneticamente, um a um, com as belas mucubais e eu bati nervoso, as fotos até chegar a minha vez. Observamos (além de outras jóias) as pulseiras douradas das moças e nos foi explicado que cada volta destes enfeites significava uma quantidade específica de bois que a família possuia, valorizando assim o dote da garota, perante a sociedade.


Oásis do deserto.

Com as Mucubais.

Êpa! É para olhar as pulseiras!

Deixamos as Mucubais e prosseguimos com a viagem em direção a cidade do Namibe, capital da província de mesmo nome, onde nos encontrávamos. Namibe ficava à beira mar e ao chegarmos próximos à cidade a temperatura voltou a cair drasticamente, nos tirando daquele calor, insuportável até mesmo para os nordestinos brasileiros. A cidade do Namibe não ofereceu mais muitas novidades além de seu porto e sua orla marítima. Também eu já estava saciado de tantas coisas diferentes nesta viagem e, sobretudo, neste dia tão peculiar, que nos revelaram uma Angola supreendente que eu jamais pensei que existisse.

Chegando a Namibe.

Orla marítima de Namibe.

Wednesday, October 11, 2006

Crônica 10 - Uige e depois de Negage a Lucala

Esta terceira temporada começou a mostrar seus desafios logo no próprio embarque para Angola, em Recife. Eu já esperava uma resistência de Matheus (meu filho,9 anos), pois ele agora já conhece todos os pontos positivos e negativos da experiência de ter o pai trabalhando muito longe de casa. Mas a sua reação me surpreendeu pela intensidade. Na hora da despedida, ele me abraçou e não me deixou partir. Não sei de onde ele tirou tanta força, pois eu não consegui me soltar (acho que naquele momento as minhas desapareceram). Sem a interferência de todos os que estavam ao redor eu não teria conseguido viajar sem deixar um trauma muito grande. Só que o trauma ficou comigo, sinto que estou aqui pela metade. A outra ficou com ele.

Os desafios continuaram… Partimos na segunda-feira, dia 02 de Maio de 2006 numa viagem que eu, em meus pensamentos mais recônditos, nunca quis que chegasse, a cidade e a província do Uíge que se localizam no centro-norte de Angola. Quando da nossa chegada em Agosto de 2005, esta província estava isolada pelas autoridades sanitárias. Motivo, uma doença degenerativa, sem cura, cuja transmissão podia ser realizada até pelo suor, ou seja, pelo contato. Este flagelo, que na região teve proporções epidêmicas, atende pelo nome de Marburg. Agora que a situação foi controlada pelas autoridades (com apoio das ONG´s), a urgência por melhorias das ligações rodoviárias nos enviou para lá por cima de qualquer risco que a moléstia ainda pudesse oferecer. O medo se abateu em todos nós brasileiros que teríamos que enfrentar mais este desafio. Contudo, a curiosidade de ver que tipo de terra gerou condições para desenvolver tal calamidade e em que circunstâncias ela se encontra depois dos esforços para seu extermínio, contribuíram para que entrássemos na Nissan que nos levaria até o Uíge.

Outra razão que me mobilizou para a nova empreitada foi uma notícia estampada no “Jornal de Angola”, datada de 21 de Março de 2005, cujos títulos são possíveis identificar na reprodução abaixo:



Vi nestas reportagens a oportunidade de entrar em contato com a fauna de Angola. Se estes animais estão dando trabalho aos agricultores, é porque ainda existem em quantidade próximo as áreas habitadas. Os hipopótamos eu não consegui ver na província do Bié (Crônica de Luanda 7), mas pode ser que agora eu consiga ver os tais elefantes que estariam dando prejuízos nas colheitas do Uíge, como diz a reportagem. Obviamente os elefantes são mais mutáveis que os hipopótamos, podendo se deslocar a distâncias maiores. Quem sabe, do alto das montanhas, por onde a estrada passa e permite que visualizemos os magníficos vales africanos, não consigamos ver uma manada, ou quem sabe um desgarrado, um filhotinho já serveria…

Iniciamos a viagem numa manhã fria e enevoada. Até a cidade do Uíge foram 370 km de estrada de péssima qualidade. Estávamos em 9 pessoas: Eu Janilson e Sidiclei, brasileiros. Armando, António Pedro e Célio, angolanos do INEA. Baba Jr., Engenheiro jordaniano e os motoristas Santos e outro que agora não lembro o nome, ambos angolanos.

Foi interessante o contacto com Baba Jr. Um engenheiro filho de empreiteiros, que estava interessado na execução dos serviços desta estrada. Com ele nos aproximamos um pouco da cultura árabe, principalmente na área de engenharia. Terminamos por verificar que a situação dos engenheiros na Jordânia não difere muito da dos engenheiros brasileiros, no que diz respeito a valorização. Ouvimos sua história de fugas desde o Oriente Médio (na década de 70), quando criança, até aqui em Angola, onde sua família fugiu dos conflitos. Ele é mulçumano, mas têm uma mente bem aberta em relação as privações que sua religião impôe, (adora tomar cerveja, coisa impensável na sua religião, como tenho observado na imensa comunidade árabe aqui em Luanda), a única coisa que ele preserva, em materia alimentar, é a abstinência por carne de porco. Na verdade seu nome é Ibraim El Assad. Baba é papai em árabe. Como o seu pai tem uma grande influência aqui em Angola e é conhecido por Baba, o filho foi alcunhado com o Jr.Havíamos levado nossas provisões, (inclusive estreamos nosso fogareiro a querosene), mas o municiamento de Baba era especial, pois ele trouxe todos os enlatados da Jordânia e dos Estados Unidos. Para um sujeito que adora experimentar tudo em materia de degustação, as provisões de Baba foram uma festa para mim. Havia o feijão “Chili Beans”, que misturamos ao nosso feijão preto (meio estranho, mas ficou bom! Afinal tudo era feijão.), havia um milho doce com um molho, que era uma delícia e claro, suas pastas árabes, cuja mais gostosa era uma de gengerlim. Baba trouxe um saco de cebola crua, que em cada refeição ele ia dizimando das formas mais variadas. A mais esdrúxula acontecia quando ele cortava uma cebola média em três rodelas grossas, colocava-as no pão, passava uma de suas pastas (que ele variava.) e comia avidamente aquele estranho e turbinado sanduiche. Ao final dos três dias de convivência o saco de cebolas continha apenas um quarto do seu conteúdo original e tenho ceteza que 70% da quantidade consumida foi só por Baba Jr. Sobre isto ele disse “Cebola é bom, limpa o organismo”. Bom, desse jeito o organismo de Baba deve estar muito sujo, ou então ele deve ter mania de limpeza interna.

Encontramos com Baba Jr. Em uma cidade chamada Caxito, capital da província do Bengo. Ele nos havia prometido um caminhão cheio de provisões, com barraca de camping, etc. Veio mesmo com uma carrinha meia-bala e com metade do prometido em mantimentos. Mas foi bom! As promessas dos empreiteiros são assim mesmo! O que valeu mesmo foram a convivência e a troca de experiências de vida que nos pudemos desfrutar.

A estrada que leva a cidade de Uige são 320 km em condições ruins, que vencemos de forma regular sem muito entrevero. A chegada foi cercada de muita apreenssão e curiosidade. A informação que nos tínhamos era que o cinturão sanitário havia funcionado e não haviam mais casos de Marburg desde julho de 2005. Comecei a ter uma visão da cidade totalmente ligada com a doença. Uige nos apareceu como uma cidade grande, com vários prédios que remontam as décadas de 60 e 70. A arquitetura então vem destas décadas, pois nada, que valha a pena notar, foi construído após este período. Ele marca a época do encerramento do período colonial português e, consequentemente, a finalização forçada de seus investimentos e também da manutenção destes prédios. Não observei as marcas da guerra, embora saiba que ela existiu em Uige.







A cidade do Uige, seus fantasmas e visitantes.


O mais inquietante eram os fantasmas que rondavam a cidade, tornando-a mais sombria do que ela já estava. A região vai levar alguns anos para recuperar-se moralmente desta tragédia que ceifou centenas de vidas, além do atraso econômico inivitável. Para mim a única maneira que achei para fugir dos fantasmas do Marburg foi ficando no meu quarto na pousada, curtindo o meu mais recente vício – “Cem anos de solidão” de Gabriel Garcia Marquez, livro obrigatório para quem está querendo sair de sua realidade e viajar para um universo mágico. Neste caso nada mais adequado.

Pela manhã tiramos fotos e rumamos para uma nova etapa a 36 km de distância que se iniciaria na cidade de Negage. Pelo caminho voltei a pensar na notícia do Jornal de Angola e sempre apurava a vista nas paisagens, curtindo a minha esperança.

Negage é uma cidade menor que Uige, mas tem uma aparência mais viva, apesar de tão próxima. Espaçosa e espalhada como as cidades do interior de Angola, não havia prédios, mas havia mais burburinho e vivacidade.


Negage e o burburinho.


Ao começarmos os trabalhos notamos que a estrada estava em boas condições, em relação as demais estradas angolanas. Havia muita dificuldade de trabalho devido ao intenso matagal na borda da via que dificultava ver qualquer milímetro além da plataforma. Daí voltei a pensar nos elefantes. Assim seria impossível vê-los. Mas quando o matagal dava uma folga e se vislumbrava algum vale, lá estavam os olhares ansiosos a procura de sinais de movimento.

Cadê os elefantes?


As aldeias iam se sucedendo e mostrando cada uma sua forma de edificações, que depende de região para região. Nesta, as habitações eram feitas com uma espécie de tijolo maciços de adobe e cobertura de palha, sempre. Em uma destas aldeia, tirei uma bela foto, onde a meninada se perfilou embaixo de hastes que armazenam sementes para a plantação. Queriam ver o “Chindele” (branco) que estava com uma máquina a tirar fotos.

Olha o Chindelle!

Alguns quilômetros adiante, começamos a ver uma quantidade enorme de carcaças de viaturas bélicas: Carros de assalto, jipes, caminhões, ônibus: Ao longo de aproximadamente 3 km estas ferragens calcinadas foram vistas, formando um verdadeiro cemitério de ferro-velho, o que coincidiu com uma súbita piora das condições da estrada, onde buracos extensos e de características diferenciadas dos ocasionados pelo desgaste do pavimento, bem mais profundos e ainda com bordas do revestimento. Santos, nosso motorista, nos informou que ali houvera uma grande ofensiva da UNITA sobre o comboio das tropas do exército, com aquele resultado que estávamos vendo. Os buracos na estrada eram provenientes dos morteiros que cairam sobre o comboio e das minas que já estavam preparadas na própria estrada e nas áreas adjacentes a ela. A tática era preparar um local propricio (como uma baixada) e minar a a área toda. Na hora do ataque, os extremos do comboio eram assaltados com morteiros, provocando a debandada geral de todos os carros sobre a área minada e isto tudo com apoio de fogo cruzado. A sensação de andar por entre aqueles esqueletos metálicos era a pior possível. Por vezes achei que havia ainda fumaça saindo das ferragens. Ao mesmo tempo eu não queria parar de olhar aquilo tudo, pois todas as cenas do que poderia ter ocorrido me vieram a mente como em um filme de guerra, só que ali tudo havia sido verdade.

Carcaças pelo caminho.


Saindo da antiga zona de conflito, nos deparamos com uma aprazível localidade chamada Camabatela. Era uma cidadezinha com ruas largas, praças arborizadas e casas de arquitetura portuguesa da primeira metade do século passado. As ruas bem cuidadas e limpas davam um ar de zelo que não encontraríamos novamente nesta viagem. Camabatela se situa já na província do Kuanza Norte e o que acabou nos chamando mais atenção foi a novíssima igreja, que, de frente, mais parecia um castelo mouro. Na vista lateral se observava a imponência das construções religiosas, só que nesta, a se ressalvar o gosto de cada um, se verificava uma certa dose de alegria nas suas formas e cores. Infelizmente estava fechada e não pudemos comprovar o que os arquitetos fizeram internamente.

Igreja de Camabatela.

Demos prosseguimento a viagem pensando em retornar para dormir em Camabatela. Pelas condições da estrada verificamos que o retorno era pouco provável, já que o trabalho estava rendendo bem e nos afastávamos cada vez mais de nossso propósito.
A próxima opção para dormir vinha com um nome meio estranho que misturava rítmo com fruta, o nome da cidade é Samba-Caju. Apesar deste nome cheio de swing, Samba-Caju apareceu com um ar de mistério ao entardecer. Não sei se pela hora, não sei se pela Igreja com os campanários das torres parecendo chapéus de bruxa, o fato é que aquele ar tinha algo de mágico e pasmem, familiar! Procurei na memória o que ou onde aquela localidade perdida no meio da África estaria me lembrando. Teria que ser algum lugar de inusitado e sem precedentes, por onde eu houvesse passado. Acampamos na praça ao lado da Igreja-dos-campanários-de-bruxa, e fizemos um banquete juntando nossas provisões com as de Baba Jr. Logo juntou alguns moradores curiosos e com eles veio um pôr-do-sol carregado de nuvens pesadas.

Igreja de Samba-Caju
Praça onde almoçamos/jantamos.

Antes que terminássemos nosso almoço/jantar, já estava caindo raios ao redor e dentro de Samba-Caju. A tempestade veio para tornar tudo mais sinistro. Encontramos uma pousada onde os quartos tinham portas e janelas feitas de chapas de ferro e dentro sentia-se a sensação de estar em uma cela de prisão. A noite veio negra mesmo, pois a cidade não tinha luz e não havia luar. A luminosidade daquela hora era feita exclusivamente pelos raios incessantes que caiam sem dó nem peidade em Samba-Caju e haja água! Sem ter muita opção, fomos dormir. O dono da pousada havia providenciado um candeeiro para cada quarto. Para mim foi bom, pois tive alguma luminosidade para me encontrar com meu companheiro de viagem Gabriel Garcia Marquês. Foi com aquela luz bruxoleante e o livro aberto que eu matei a charada! A Igreja-dos-campanários-de-bruxa, a praça da matança, o dilúvio que não passava, a magia e o mistério no ar, era na cidade de Macondo, de “Cem anos de Solidão”, que eu pensava quando vi Samba-Caju pela primeira vez. Daí pra frente, toda vez que eu abria o livro, Macondo se travestia em Samba-Caju e esta me acompanhou até o seu final. Adormeci sonhando que estava na casa dos fantásticos personagens da família Buendía.

Tempestade na noite escura.
Pousada “Buendía” onde dormimos.

Ao acordar da minha especialíssima noite fantástico-imaginário-literária, vi que para os outros a noite não fora tão instigante quanto a minha. Um dos parceiros não conseguiu dormir por ter estranhado as acomodações, o outro acordou no meio da noite sufocado pela sensação de prisão que o quarto tinha e entrou em uma espiral de claustrofobia achando que o candeeiro estava queimando todo o ar do quarto. Então, em um extremo esforço de sobrevivência, arrastou-se penosamente até o local da chama assassina, apagando-a já no limiar de suas forças.

Ao saber desta história tresloucada eu lhe disse que não havia tido problemas pois soubera como usar o candeeiro.
– E como você usou este negócio, então? Perguntou meu parceiro interessado.
– Ora, foi só calcular o volume do quarto e controlar a respiração para que o ar tivesse sido suficiente para mim e o candeeiro durante a noite. Disse eu.

Deixamos para traz Macondo, quer dizer Samba-Caju, alguns aliviados, eu agradecido pela experiência vivida e continuamos a trabalhar na estrada pela manhã quando o Sol nem sequer havia saindo (seis horas da manhã ainda estava escuro). Esta não estava oferecendo as mesmas condições de tráfego que antes de Samba-Caju. Chegamos a ponte metálica sobre o rio Cuzo, que não dava a mínima condição de travessia. Almoçamos neste local e pegamos um desvio que dava acesso a outra pequena ponte provisória. Neste desvio foi que a nossa viagem/trabalho se tornou uma autêntica aventura off-road. A tempestade da noite anterior caiu forte sobre o desvio e o material de seu leito era extremamente argiloso. O resultado foi uma autêntica dança das carrinhas e de nossa Nissan Patrol. Foi um tal de escorregar, andar de lado e atolar até chegar na ponte. Apesar de todas as dificuldades passamos por ela. Coisa que não aconteceu com um certo usuário peso-pesado, conforme a foto.


Aventura off-road.

Este não passou pela ponte.

Quando passamos, desci para fotografar. Não vi que depois que todos passaram, houve uma debandada geral de quem estava fora para dentro dos veículos. Repentinamente as buzinas começaram a tocar e quando olhei, todos estavam fazendo sinal para eu entrar e fechar a porta. Em um instante de hesitação, fiquei rodeado por insetos grandes. Com um salto entrei no carro efechei a porta. Vi quando eles pregaram no vidro. E aí tive a noção de quem estava me assediando. Nada mais, nada menos que as moscas Tsé-Tsé, as populares moscas do sono. Segundo lembrança da escola aquelas gracinhas transmitem uma doença que deixa a criatura moribunda de tanto dormir e termina matando o infeliz. Existem armadilhas para elas ao longo de toda a estrada. Batemos o interior da Patrol para ver se não havia entrado alguma. Tentei verificar para ver se havia algum indício de transmissão em mim. Nada percebi. Tratei de esquecer o episódio.

Armadilha para as Tse-Tsés.


Daí para frente tudo decorreu com calma até chegarmos a Lucala, ponto final deste troço (aqui não se chama trecho de estrada e sim troço), após uma odisséia de 194km de trabalho. Abastecemos as carrinhas e nos despedimos de Baba Jr, que não nos acompanharia na outra parte da jornada.

A ausência maior nesta viagem foram dos tão procurados elefantes, que nós não sabemos se não apareceram, ou se não conseguimos ver devido ao intenso matagal que ladeava a estrada.


Onde estão os Elefantes?

Prosseguimos na EN-230 em direção ao Alto Dondo onde, iríamos fazer a base em Cambambe para levantar o troço Desvio da Munenga-Calulo, com uma extensão de 48 km.

Cabambe para quem não lembra, é a vila de arquitetura arrojada, que serve aos moradores que operam a barragem do rio Kwanza e fez parte da Crônica 8. Ficamos 2 dias lá e exploramos ainda mais a vila. Descobrimos uma exposição de blindados relíquias da guerra que nos permitiu fazer algumas brincadeiras como as das fotos.




Brincadeiras perigosas.


Mais ao fundo vimos as ruínas de um forte construído no século XVI e, é claro, fomos explorá-las. Dentro do forte havia uma capela em ruínas que nos fascinou e deve impressionar a você também. Veja as fotos.




Entrada do Forte.

Ruinas da Capela.


Entrada

Entrando…


Olhando a esquerda.

Altar com cruz de pedra.



Ostensório

Vista do Altar para entrada.


Olhando a esquerda no altar.

Sepultura.

Vista da parte superior.

Janela central.

Saída lateral direita


Não tenho muito o que falar sobre o levantamento final, a não ser que apesar de serem só 48 km, tecnicamente foi bem mais difícil de se trabalhar que os primeiros 194 km. Apenas um e relevante fato deve ser notado, exatamente para concluir este relato. Uma das dificuldades deste troço era a mesma do anterior. O matagal alto e denso, que não permitia ver nada além dele. Só que este produzia algo “sui generis” que serviu para aliviar o stress que a dificuldade no trabalho gerava. Flores, muitas flores amarelas, que pareciam grandes margaridas a tomar conta do matagal e fazer com que a estrada se tornasse um imenso corredor florido.





Monday, July 24, 2006

Crônica 9 - Luanda

Crônica 9 - O que fazemos neste país?
A pergunta deve ser mais ampla. O que fazemos da vida que nos levou para este país? Somos na realidade elementos de construção, de melhoria para este povo, ou somos apenas expatriados?
Sinto que algo muito forte me puxou para cá. Não consigo discernir o que. Por hora sinto a extrema necessidade de relatar estes fatos que estão nos sucedendo. Talvez a vanglória é que esteja acima de tudo como motivo principal. Sinto também uma sede muito grande de investigar os fatos aqui acontecidos que deixaram marcas tão profundas nos lugares e nas pessoas.
Na segunda fase pouca coisa ocorreu a não ser a mostra das perspectivas de locais de trabalho, que me parecem muito sombrias e batem frontalmente com os meus desconhecidos limites. Para encará-las devo tentar enlarguessê-los, já que são estranhos até para mim. Se o que se avizinha se configurar verdadeiro, será a experiência mais árdua por que já passei. Um teste físico e psíquico.

Baia vista da Fortaleza de São Miguel.

Final da Ilha e vista do mar na Fortaleza de São Miguel.

Estou tendo mais contato com a cidade de Luanda em si. Na primeira temporada, a orientação era que evitássemos o trânsito louco, as aglomerações, as saídas sem sentido para não encontrarmos com a população e evitar atritos. Realmente tivemos problemas, principalmente com a polícia, que não nos dava trégua, pedindo sempre nossos passaportes na esperança de alguma situação irregular para achacar mais ainda a nossa vida. Lembro de estar na Bahia de Angola as 3 da tarde aguardando um técnico instalar um odômetro de precisão na nossa “carrinha”(uma caminhonete Nissan). Comecei a caminhar apreciando a paisagem. Estava com a máquina fotográfica e não resisti a necessidade (isto mesmo, necessidade!) de levar a bahia comigo. Comecei a tirar fotos como um desesperado, apesar de todas as orientações em contrário. Saí andando e meu dedo tresloucado em cima do botão acionador da máquina registrava a bahia e o trânsito com seus carrões (e também com muita porcaria ambulante). Aquilo era mais forte do que eu e fotografei os ambulantes sentados na orla, com uma moça e seu filhinho atado à suas costas à maneira africana.


Ambulantes na Marginal
Vieram duas zumbeiras lindas com nada mais que uns 14 anos. Fiquei encantado e pedi para tirar uma foto, pois se elas sorrissem na foto como estavam sorrindo, acho que ganharia um prêmio fotográfico. Recusaram, respeitei, uma pena! Continuei andando e cheguei em um local onde achei que a vista havia se tornado mais bonita. Meu dedo enlouquecido começou a funcionar novamente só parando com uma interpelação de um rapaz. – Amigo, para de bater fotos, sou da polícia e aqui é proibido. Vou ter que te prender.




Foto da confusão com a Polícia

Não acreditei que estava sendo preso e comecei uma preleção sobre o turismo mundial, que Angola estava se abrindo para ao povos de fora e que já estava na hora daquela mentalidade mudar. O Guarda não quis conversa. Então o sangue subiu à cabeça e ofereci-lhe os pulsos para que colocasse alguma hipotética algema. – Vai cara, me leva, a embaixada brasileira vai adorar saber que você me prendeu por causa de uma foto da bahia. Vamos lá!. Blefei!!! Não sei se o meu topete foi excessivo, ou, o mais provável, se o guarda não tinha realmente a intenção de me levar, o fato é que a conversa mudou para um tom mais ameno e o guardinha mostrou o que realmente estava querendo. – Podemos resolver aqui mesmo, o Pah!. - É só me dar uma gasosa (dinheiro para refrigerante)! - Não há necessidade de ir para o quartel. Bem, aí acabaram-se o papo e as razões do Polícia.

A outra agitação com a polícia foi depois que nosso visto expirou (aos 3 meses de permanência). O INEA refez sua programação, o que nos impediu de viajar e regularizar nossa situação. Viajamos ilegais para o interior do País, confiando na equipe do INEA que estava conosco. Em N´Dalatando, capital da provícia do Kuanza Norte, fomos localizados e levados pela Polícia de imigração, a DEFA. Passamos uma hora em suas dependências até que o director setorial nos liberasse com salvos-condutos que resolveram a situação. Com estes entreveros com a polícia, já me sinto um fora-da-lei aqui em Luanda.

Isto tudo aconteceu entre agosto e dezembro do ano de 2005. Acho que relaxamos mais no ano de 2006. Vencemos o medo de dirigir no trânsito maluco: Não fico mais tão ausente da cidade por causa das viagens, da quantidade de trabalho, e alguns receios como o preconceito, a extorsão da polícia, o visto etc. Estamos explorando mais Luanda. Alguns bares, uns novos restaurantes e principalmente, a descoberta da sensação de liberdade que as corridas na marginal da Bahia de Luanda proporcionam. Não vínhamos por puro desconhecimento e pela sensação geral de insegurança que esta civilização proporciona.

Vista da Marginal.


Pode parecer tolice que só após 6 meses é que desentocamos, mas o medo que nos foi incutido foi muito grande e levou todo este tempo para ser suplantado. As experiências negativas e a constatação daquele caos no trânsito, contribuiram para que este estado de espírito se agravasse, e por fim, a própria impossibilidade de sair realmente, devido a tanto trabalho que se tinha à frente.

O prédio em que moramos e trabalhamos.


O despertar se deu de várias formas. Uma delas pela pura constatação de que perigo por perigo, os que estávamos submetidos no interior do país, com as ameaças das minas, doenças (como malária e doença do sono), eram maiores. Outra forma de abrir os olhos foi com o ingresso de um novo integrante na equipe. Um arquiteto paulista, chamado Rodrigo Sanfelice que já havia estado em Luanda e nos levou a muitos locais sem nenhum receio. E veio o questionamento, “Se ele pode, porque eu não posso”.


Realmente o mundo aqui não é dos mais salubres, nem dos mais seguros, todo cuidado é pequeno, mas ninguém me tira mais a sensação de correr na pista de cooper olhando a bahia e as luzes da cidade, experimentando o vento batendo no corpo todo.

Marginal da Baía de Luanda - Que tal uma corridinha?


Nesta liberdade estou vendo que Luanda hoje é uma cidade constituída por muitos estrangeiros, trabalhando em diversas atividades, mas, principalmente, as ONG´s é que espalham os estrangeiros no país. Nas noites de sábado os bares da ilha lotam de italianos, alemães, franceses, indianos, com suas mulheres de shadô, chineses (um mar deles), portugueses e nós brasileiros. As margens da bahia de Luanda existe um bar altamente bem produzido, chamado Espaço Bahia, que é de ninguém menos que a filha de Djavan, que é casada com um angolano. Assim Luanda está ficando cada vez mais uma cidade cosmopolita por necessidade.
O carnaval daqui só existe na terça-feira. A segunda é dia normal de trabalho, pode? Mas também para viver um carnaval como o daqui é preferível, para nós brasileiros, trabalhar mesmo. É muita Kizumba, muito Semba, muito Kuduro, mas quando pensamos no nosso carnaval, o daqui vira uma festinha de rua a motivação para apreciá-lo não existe.

Imensa periferia.

Zungueiras vendendo pão.

Tento então viver como deve ser vivida esta experiência. Aproveito para usufruir o que esta terra tem a oferecer em materia de cultura e diversão, embora isto seja difícil. Não quero me internar em casa e esperar o dia que volto para o Brasil. Estou em Angola e minha boa estadia aqui depende exclusivamente de como minha mente está encarando isto tudo.